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Broadway Danny Rose (Broadway Danny Rose, 1984) é um filme escrito e dirigido por Woody Allen que conta a estória de um agente de artistas fracassado, porém muito dedicado, que sempre acaba se envolvendo nas intimidades de seus clientes. Quando conhece o cantor Lou Canova, ele enxerga a oportunidade de finalmente alcançar o estrelato, mas acaba entrando exageradamente em sua vida particular, tentando resolver seus dilemas com a amante (interpretada por Mia Farrow). Aí começam os reais problemas, ao se meter com a máfia italiana e a conseqüente frustração ao perder seu maior cliente, mesmo após tanta dedicação. O roteiro é, como quase todos os filmes de Allen da época, inteligentíssimo e original. Porém, diferentemente de suas obras-primas, Broadway Danny Rose possui ressalvas. Ficamos sempre na expectativa que o filme engrene, mas isso acaba não ocorrendo. O diretor faz uso muito mais escasso de suas belas metáforas e subtextos geniais que aprendemos a amar no seu humor crítico e existencialista. Desta vez, não temos muito o que buscar nas entrelinhas, o que perde metade da graça, em se tratando de Woody Allen. Se conseguirmos esquecer por um momento que se trata de um de seus filmes e o rebaixarmos a um longa "normal", pode tornar-se muito agradável de assistir. A interpretação de Mia Farrow está brilhante, sendo o destaque do filme. Nota: 6,5
Memórias (Stardust Memories, 1980) é um filme escrito e dirigido por Woody Allen que narra a estória de um famoso cineasta que passa por um momento de crise existencial, ao querer explorar as grandes questões humanísticas e filosóficas em sua obra, mas é friamente recebido por crítica e público, que preferem suas comédias de início de carreira. O filme é talvez o mais auto-biográfico de seus longas, sendo também um dos mais ácidos, mas no melhor dos sentidos. Beira o incompreensível tal filme ter permanecido na filmografia secundária de Allen, tamanha genialidade em preto e branco. Os diálogos estão sensacionais, entre os melhores escritos de sua carreira. Seu humor nunca esteve tão crítico e irônico, proporcionando situações hilariantes e incrivelmente sensíveis ao mesmo tempo. Allen também nunca explorou de forma tão acessível (comparado ao não menos genial mas difícil "Interiores") e brilhante seus grandes questionamentos existencialistas, sendo o principal - qual o sentido da vida? - inesquecivelmente respondido na última seqüência do filme. Vale mais do que muita psicoterapia por aí, e é por obras como essa que Woody Allen se tornou um de meus grandes ídolos do Cinema em todos os tempos. Absolutamente imperdível, para ver e rever em diversas fases de nossas vidas. Nota: 9,0

Curiosidades: Memórias é creditado como o filme de estréia da famosa atriz Sharon Stone. Tentem achá-la, pois ela aparece em uma única e breve cena, sem falas.
A seqüência final, em que Allen fecha com chave de ouro este grande filme, é uma das mais belas evocações de amor que já presenciei nas telas. Reza a lenda que a personagem foi inspirada em sua primeira esposa, Louise Lasser.

Direito de Amar (A Single Man, 2009): Dirigido pelo estreante Tom Ford, estilista de moda que abraçou o projeto a ponto de financiar parte dos gastos. Baseado no romance homônimo de Christopher Isherwood, o filme narra a vida de um professor Britânico gay erradicado na California da década de 60, que tem que lidar com a farsa que se tornou sua vida e a trágica morte de seu grande amor. O elenco tem como protagonistas os excelentes Colin Firth e Julianne Moore, ambos em papéis memoráveis, recompensados com diversas indicações de melhor ator e atriz coadjuvante, incluindo o Oscar (para Colin Firth) e Globo de Ouro (para ambos). Colin Firth ganhou o BAFTA de 2010 de melhor ator. Bela fotografia e trilha sonora poderosa ajudam a ditar o ritmo da obra, que apesar de lento, traduz de forma eficaz a percepção de seu personagem principal. Nota: 7,5


Oscar e Lucinda, uma História de Amor(Oscar e Lucinda, 1997): Dirigido por Gillian Armstrong e baseado em livro homônimo de Peter Carey. O filme se passa na Austrália e Inglaterra do século 19 e narra a vida de um pastor anglicano viciado em jogo que encontra sua alma gêmea numa mulher de grande espírito livre, herdeira de grande fortuna mas também compulsiva por jogo. Estrelado por Ralph Fiennes e Cate Blanchett nos papéis principais, e Tom Wilkinson vivendo o mentor religioso de Fiennes. As atuações de Fiennes e Blanchett estão arrebatadoras, como sempre. A fotografia é lindíssima, mostrando as belas paisagens australianas. Porém, o enredo é confuso, as situações não convencem o espectador, paradoxalmente ás interpretações incrivelmente verossímeis de Fiennes e Blanchett, Uma pena. Fica a sensação que poderia ter ido mais longe.
Nota: 6,0

A Balada de Jack e Rose (The Ballad of Jack and Rose, 2005): Dirigido por Rebecca Miller, conta a estória de um amor entre pai e filha que ultrapassa as barreiras aceitas pela sociedade. Eles vivem isolados do mundo moderno em uma pequena ilha dos Estados Unidos, no que restou de uma pequena comuna hippie dos anos 60 e seus ideais naturalistas. Estrelado por Daniel Day Lewis e Camilla Belle e, como coadjuvantes, os sempre competentes Catherine Keener e Beau Bridges. Apesar da boa idéia, o enredo nunca engata verdadeiramente, faltando sempre uma boa dose de sentido. Percebe-se um esforço demasiado na tentativa de uma abordagem diferente sobre a temática do naturalismo, mas sentimos uma falta de coesão permeando a obra de forma geral. Day Lewis é, evidentemente, o grande destaque, sendo a peça da engrenagem que ainda consegue dar um pouco de credibilidade á trama. Nota: 5,5

Daniel Hetzel

"Querido Frankie" (Dear Frankie) é um dos tantos filmes existentes mundo afora que não ganham a devida projeção por não terem o apoio financeiro e comercial necessário da cada vez mais massificante indústria cinematográfica. Dirigido por Shona Auerbace, escocesa que fez seus estudos na renomada escola polonesa de cinema, e com roteiro de Andrea Gibb, o filme conta a estória de um amor incondicional de uma jovem mãe pelo seu filho surdo. Tentando proteger Frankie (Jack McElhone) da verdade, Lizzy (Emily Mortimer) começa a escrever cartas em nome de um pai fictício, que trabalha a bordo de um navio que passa por terras exóticas. Porém, o tal navio decide aportar na cidade que eles se encontram, o que faz com que ela tenha que escolher entre contar a verdade ou contratar um estranho (Gerard Butler), sem passado, presente ou futuro, para se passar pelo pai de Frankie por um único dia.

O filme, fosse colocado em mãos menos talentosas, poderia ter se transformado numa obra piegas e melodramática, repleta de clichês. Porém, a sensibilidade de Shona transborda na tela, criando uma trama convincente e repleta de ternura. A fotografia também ficou a cargo de Auerbace, que foi particularmente exigente neste aspecto, selecionando criteriosamente sua paleta de cores, com uma ausência de branco e apenas respingos ocasionais de azul, tornando o tom predominantemente pastel bastante característico do clima escocês, úmido e frio, sem diminuir em nada sua extenuante beleza.

O elenco é outro ponto forte do filme, tendo atuações inspiradas de todos os atores. O talento nato do garoto que interpreta Frankie é notável, e a química entre os personagens de Butler e Emily Mortimer é tamanha que a famosa cena do beijo chega a ser exasperante de tão intensa. A bela cena de dança, boa parte filmada em slow-motion, teve metade de sua duração cortada, pois a segunda parte foi filmada em preto e branco e não agradou aos produtores, que entendem de dinheiro mas nada de arte. Vale a pena dar uma conferida na versão integral da cena, disponível no DVD. Emily Mortimer, ao meu ver, tem um enorme potencial, e adoraria vê-la futuramente em outras produções. Poucas atrizes "desconhecidas" (por mim pelo menos) conseguiram me impressionar tanto, pela entrega e pela sua naturalidade em cena.

Outro aspecto maravilhoso do filme é a trilha sonora, repleta de ótimas canções, em sua maioria de compositores irlandeses e escoceses. A trilha entra em total sintonia com as situações vividas pelos personagens, aumentando exponencialmente a carga dramática e, pontualmente, romântica. Porém, o silêncio também é explorado na obra, fazendo parte da caracterização do personagem de Frankie. Evitou-se de forma sublime os diálogos desnecessários, comuns nos filmes Hollywoodianos.

A obra foi selecionada por todos os grandes festivais internacionais de 2004, incluindo Cannes, mas estacionou aí. Premios, apenas de festivais menos expressivos, como o de Seattle, o de Los Angeles e o Heartland Film Festival. Bem menos do que deveria e merecia. Mas, certamente, esse pequeno poema em forma de filme será sempre lembrado pelos verdadeiros amantes da sétima arte ou simplesmente por pessoas que desfrutam de uma bela e sensível fábula onde a arte imita a vida.

Nota: 9,0
Daniel Hetzel

Neverwas é um emocionante filme de 2005, sobre como a fantasia e o conto-de-fadas podem ser importantes para nossas vidas. Zach (Aaron Eckhart) vai trabalhar no instituto de psiquiatria em que seu pai, Pierson (Nick Nolte), esteve internado por alguns anos. Conhecido publicamente pelo best-seller infantil que escreveu antes de sua trágica morte, Pierson sempre foi um mistério para seu filho, com quem mantinha uma relação distante. A partir do relacionamento com Gabriel (Ian McKellen) paciente esquizofrênico do instituto, e Maggie (Brittany Murphy), jornalista que está fazendo um trabalho sobre Pierson, Zach começa a entender o mundo de fantasia em que seu pai vivia desvendando os segredos do livro e de sua própria vida.

O trunfo do filme é o elenco estelar, que conta com nomes como Ian McKellen, Nick Nolte, Aaron Eckhart, Brittany Murphy, William Hurt, Jessica Lange e, para os mais atentos, uma ponta da então desconhecida atriz Vera Farmiga. É cada vez mais raro, nos dias de hoje, presenciarmos tantos bons nomes no mesmo filme. Quando isso ocorre, trata-se de uma mega-produção milionária de Hollywood ou, como acontece em filmes autorais de diretores renomados, do estirpe de Woody Allen, os atores chegam a trabalhar de graça, só pelo prazer profissional de participar de um dos projetos do cineasta.

O jovem diretor Joshua Michael Stern está bem longe do prestígio acima comentado, apesar do belo trabalho de estréia. Porém, existe uma terceira possibilidade, cada vez mais remota, de conseguir reunir tantos astros: um grande roteiro. É exatamente o caso de "Segredo de Neverwas". A obra não cai no vacilo da mesmice, ao mostrar um possível mundo imaginário como real. Pelo contrário, o filme reforça a importancia da fantasia em nossas vidas adultas, mesmo que os contos de fadas não ultrapassem a fronteira das páginas dos livros infantis.
Outro ponto positivo do filme é a forma delicada que aborda a questão da doença mental, mais precisamente a esquizofrenia. O paciente interpretado pelo ator Ian McKellen (mais conhecido pelo público pelo papel do mago Gandalf na trilogia Senhor dos Anéis) tem uma atuação soberba, sendo o grande destaque do longa. O final do filme aponta um questionamento interessante, principalmente para os interessados nessa área de saúde mental: O que seria melhor para um paciente psiquiátrico grave, como no caso do personagem de McKellen? Forçá-lo a encarar a fria realidade de um mundo que ele jamais virá a conhecer de verdade, pelas suas limitações psíquicas, ou deixá-lo viver no mundo que ele adotou para si mesmo, que se sente confortável e, muito possivelmente, feliz, desde que acompanhado por pessoas que o compreendam? Deixarei esta pergunta no ar para quem quiser comentar!


Nota: 7,5

Daniel Hetzel






















Dennis Hopper... O que esse nome lhes faz lembrar? Para muitos, infelizmente, nada. Sim, a verdade é que muitos jovens nem ao menos ouviram falar deste grande ator. Dennis Hopper iniciou sua carreira ao lado de James Dean nos filmes "Assim Caminha a Humanidade" (Giant, 1956) e Juventude transviada ( rebel without a cause, 1955), experiência que marcaria para sempre a trajetória do ator.
Hopper era conhecido pelo seu perfeccionismo, e ingressou no mundo de Hollywood com um único objetivo: se tornar o maior ator americano de sua época. Logo percebeu que seria tarefa impossível, pois afirmou públicamente que ninguem conseguiria ser maior que Marlon Brando. Mesmo assim, não desistiu de sua idéia fixa, e já que não poderia ser o maior de todos, decidiu lutar para ser o melhor ator jovem. Entretanto, sua busca terminou muito antes que imaginava: no momento preciso em que viu James Dean atuar. Hopper ficou obcecado pelo talento de Dean, e sua morte precoce o abalou profundamente. O jovem ator decide seguir fielmente os passos de seu mentor, indo estudar na Actor`s Studios de Nova Yorke e tornando-se a verdadeira personificação do mais famoso papel de Dean, um rebelde sem causa.
Passou por um hiatus cinematográfico de 7 anos em Hollywood, após um famoso episódio durante as filmagens do filme From Hell To Texas, em que se negou a dizer uma das falas do roteiro durante 80 tomadas consecutivas. John Wayne, um dos maiores astros americanos de todos os tempos, decide salvar sua carreira ao pedir a escalação de Hopper em seu próximo western, "Os filhos de Katie Elder" ( The sons of Katie Elder, 1965) mas, aparentemente, Hopper não demonstrou muita gratidão a Wayne, pois aprontou todo tipo de confusão no set, levando o próprio Wayne à loucura, tendo perseguido o rebelde ator com a arma em punho para matá-lo.

No filme Apocalipse Now, de Francis Ford Coppolla


Poucos anos depois, no lendário ano de 69, Hopper escreve, dirige e protagoniza o seu maior sucesso: "Sem Destino" (Easy Rider, 1969). Ao lado de Peter Fonda, em pleno auge do movimento hippie, eis que Hopper decide fazer um filme sobre a busca da liberdade suprema, sem amarras da sociedade opressora americana. A obra foi um dos grandes marcos da contra-cultura mundial, inspirando centenas de outros cineastas e artistas, e ajudou a mudar a forma de se fazer cinema em Hollywood. Jack Nicholson também tem uma participação marcante no filme, se tornando um amigo inseparável de Hopper desde então. Segundo as palavras de Nicholson, ambos eram almas gêmeas, de uma certa forma.


Seu personagem imortal, em "Easy Rider".

Infelizmente, Hopper jamais conseguiu permanecer no topo por muito tempo, devido ao seu temperamento explosivo e seus hábitos de vida. Teve inúmeros problemas com drogas, tendo sido internado em clínicas de reabilitação incontáveis vezes. Foi casado 5 vezes, mas era famoso pelos seus problemas conjugais. Estava enfrentando um longo processo de divórcio com sua mais recente esposa, Victoria Duffy, até o momento de sua morte.

Após Easy Rider, Hopper estrelou alguns ótimos filmes, como o inesquecível "Apocalipse Now" de Coppolla, ao lado de Marlon Brando, e "Veludo Azul" (Blue Velvet, 1986), celebrado filme de David Lynch. Porém, para muitos, o papel mais lembrado do ator parece ser o do vilão no filme Velocidade Máxima (Speed, 1994), filme de ação que contracena com o galãzinho Keanu Reeves, futuro astro de Matrix. É inegável dizer que a carreira de Dennis Hopper teve muito mais baixos que altos, devido ao seu estilo de vida incontrolável. Mas é importante também dizer quão talentoso ele foi, ao menos quando o desejava ser. É o exemplo clássico de pessoa que desperdiçou grande parte de seu potencial artístico. Aos cinéfilos admiradores de seu talento, só nos resta lamentar e lembrarmos de Dennis Hopper como o eterno motoqueiro barbudo e hipponga, eternamente rodando pelas estradas ensolaradas do árido sul dos Estados Unidos.

Dennis Hopper morreu aos 74 anos, no último sábado, dia 29 de maio de 2010.




Dennis Hopper recebendo a 2,403ra estrela da calçada da fama de Hollywood, no dia 18 de março de 2010, já muito perto de sua morte, por câncer de próstata.


John Travolta interpreta Jack Terry, um sonoplasta de filmes de terror B que, por obra do destino, grava acidentalmente o som de um acidente de carro, que descobre ser do famoso governador George McRyan, líder nas pesquisas para ser o próximo presidente americano. É o ponto de partida de uma sucessão de acontecimentos que irão guiar Terry a desvendar esse quebra-cabeças de tom conspiratório, num crescente suspense. Travolta está ótimo no papel do protagonista paranóico e reservado, possivelmente seu melhor trabalho interpretativo até os dias de hoje ( unicamente equiparado à sua participação em Pulp Fiction de Tarantino ).

Um
Tiro na Noite ( Blowout, 1981), é um daqueles filmes que ganham popularidade com o passar dos anos, até ganharem status de cult. Porém, em sua estréia, foi um enorme fracasso de bilheteria, uma verdadeira tragédia na carreira pessoal do diretor Brian De Palma e do astro John Travolta. No entanto, o filme é considerado uma das obras-primas de De Palma pela esmagadora maioria dos criticos até hoje, sendo lembrado como uma das mais belas homenagens feitas ao mestre do suspense Hitchcock.

Na minha concepção, é mu
ito mais do que uma bela homenagem, fugindo do estereótipo clássico do suspense para se tornar um filme complexo, não em sua narrativa, mas na sua abordagem. Não se trata unicamente de um ótimo thriller, como muitos o consideram. O filme é historicamente único, essencial para quem deseja compreender um pouco do sentimento americano/anti-americano na era Reagan. Nao foi mero acaso o filme ter afundado nas bilheterias americanas em sua estréia, em 81. Precisamos entender o contexto da época: 1981 foi o primeiro ano de mandato de Ronald Reagan, presidente republicano dos Estados Unidos que assumiu num contexto de total otimismo e patriotismo renovado. Reagan, muito provávelmente, tenha sido o presidente americano que melhor soube explorar sua imagem, muitas vezes pregando uma coisa e fazendo o oposto logo a seguir, sem grandes repercussões, diferentemente de Nixon. Outro fator importante era a grande demanda pública por mais seguranca nacional, devido a uma nacão inteira ainda de ressaca pela quase interminável guerra do Vietnã.

É nesse ambiente hostil e repleto de incertezas que De Palma nos joga, brincando com seu roteiro ( no bom sentido), misturando os gêneros, provocando o senso crítico do espectador a todo momento. Ele questiona o patriotismo cego do americano comum, utilizando diversos simbolismos em momentos cruciais da trama, como no final surpreendente, cuja personagem da atriz Nancy Allen encontra-se encurralada pelo psicopata misterioso interpretado pelo ótimo John Lithgow e, como pano de fundo, a bandeira americana. Onde estaria a tão sonhada segurança
? Tudo não passaria de mera ilusão ou de falsas promessas? De Palma nos brinda com questionamentos políticos profundos, sempre com sua marca registrada: sem sutilezas, mas sem perder sua sofisticação característica. O desfecho do filme, já considerada clássica, é uma cena verdadeiramente antológica, de múltiplas interpretações. Ao meu ver, de gelar o sangue.

Certa vez, Brian De Palma fez uma célebre declaração: "A câmera mente 24 vezes por segundo".
Quanto, devemos nos perguntar, nossos políticos o fazem?

Nota: 9,0
Daniel Hetzel


A estação Cabo Branco abre as portas gratuitamente para uma temporada de Cult movies e filmes antigos, trabalhos de diretores Europeus e grandes clássicos do cinema.
A abertura fica por conta do filme Les parapluies de Cherbourg (França/Alemanha, 1964) de direção Jacques Demy.
A história é dividida em três atos, decorridos entre os anos de 1957 e 63. O primeiro ato apresenta dois jovens amantes, Genevieve (Catherine Deneuve) e Guy (Nino Castelnuovo), enlevados por uma paixão adolescente. Genevieve trabalha na loja de guarda-chuvas de sua mãe, Madame Emery, que desaprova o namoro com Guy, um simples mecânico. Um mundo mágico se arma para os amantes, quando eles estão juntos. Antes de se casar, Guy quer cumprir os dois anos de serviço militar. Eles fazem planos para o futuro, ela fica grávida do namorado quando ele vai lutar na Argélia. Quando ele volta, Geneviève está casada com outro.

Um filme singelo e bem dirigido.

Na estação França, à partir do dia 20 de maio, às 19h, em João Pessoa.

Alicia Truffaut


"A Hora do Pesadelo" (Nightmare on Elm Street) é o novo remake baseado em um grande clássico do terror. E um novo remake desnecessário... Freddy Krueger iniciou sua trilha de sucesso com o primeiro filme da franquia, A Hora do Pesadelo, lançado em 1984, e escrito e dirigido por Wes Craven, um dos grandes nomes do terror hollywoodiano. O filme quebrava a falta de originalidade que dominava o setor, criando uma estória verdadeiramente interessante e aterrorizante: A idéia de sermos atacados por um maníaco imortal no local em que somos mais vulneráveis... nossos sonhos! Muita gente perdeu literalmente o sono nos anos 80 com medo das afiadas garras de Freddy e suas "brincadeiras" sádicas. Entretanto, por mais que seja um dos maiores ícones pop do terror mundial, Freddy cativou um maior número de fãs ao redor do mundo por uma de suas características mais marcantes: o humor negro.
É nesse quesito que existem as maiores divergências sobre a qualidade de seus filmes. Alguns fãs xiitas alegam que apenas o primeiro longa seria de qualidade inquestionável, pois Freddy assume um papel cada vez mais cômico ao longo das continuações. Porém, muitos outros (e eu me incluo neste grupo) consideram este lado irreverente de Freddy o grande diferencial de toda a franquia. É inegável a enorme contribuição do carismático ator Robert Englund, que carregou sozinho alguns dos filmes mais fracos da série. Wes Craven também foi decisivo em todos os melhores momentos de Freddy na telona, pois participou ativamente da produção/direção dos três melhores filmes ( A Hora do Pesadelo 1; A Hora do Pesadelo 3 - Os Guerreiros dos Sonhos; Novo Pesadelo - O Retorno de Freddy).

O novo longa de Freddy, além de ser o primeiro e único filme cujo ator Robert Englund não interpreta Krueger, sendo substituído pelo ator
Jackie Earle Haley (Pecados Íntimos), tenta nos transportar ao clima de terror absoluto do primeiro longa. Sem joguinhos, sem rodeios. Para aqueles que apreciavam o humor negro tão característico de Freddy, ficarão decepcionados com o resultado. O filme mostra sequências clássicas do original, como a cena da banheira, mas sem o mesmo efeito. É a grande diferença entre filmes que dão sustos e filmes que assustam. A importância da cidade Springwood e, principalmente, da rua Elm, são relegadas a terceiro plano, sem interferência alguma na trama.

O grande diferencial de "A Hora do pesadelo" tinha sido sua originalidade. Este remake tornou Freddy um vilão comum, sem carisma, sem estrela. Apenas um mostro imaginário, como tantos outros... Uma pena!

Nota: 5,0
Daniel Hetzel



A Hora do Pesadelo (1984): Onde tudo começou. Até hoje é considerado o melhor filme da saga pelos críticos. Neste primeiro capítulo, presenciamos um Freddy Krueger muito menos brincalhão, bem mais aterrorizante. Mortes antológicas, personagens carismáticos, bom elenco (incluindo a estréia cinematográfica de Johnny Depp) e uma direção firme e criativa de Wes Craven. Marcou época no imaginário dos jovens dos anos 80. Foi eleito um dos melhores filmes de terror da história do Cinema.



A Hora do Pesadelo 2 - A Vingança de Freddy (1985): Foi o primeiro filme da série sem a participação do criador Craven (que era contra sequências). Isso se reflete na falta de criatividade do roteiro e da direção. O ator protagonista é muito inferior à atriz do primeiro longa, Heather Langenkamp, e não consegue, em momento algum, convencer o espectador. Verdadeiro fracasso de público e crítica. Na minha opinião, o pior filme da série.




A Hora do Pesadelo 3 - Guerreiros de Sonhos (1987): Depois do fiasco do segundo filme, Wes Craven volta ao universo que criou como roteirista e produtor, deixando a direção a cargo de Frank Darabont (Um Sonho de Liberdade, À Espera de um Milagre). Contando com um bom elenco, incluindo Patricia Arquette, Laurence Fishburne e Heather Langenkamp (Nancy, a protagonista sobrevivente do primeiro longa), ótimos efeitos especiais, roteiro mais coeso com a estória original, temos um ótimo filme. Um dos melhores momentos de Freddy.


A Hora do Pesadelo 4 - Mestre dos Sonhos (1988): A partir deste filme, o roteiro parece não importar mais, tudo servindo como justificativa para que a estrela de Freddy apareça nas telas do cinema. O terror virou secundário, sendo muito mais cômico do que qualquer outra coisa. O elenco ficou fraco, mas ainda conta com a beleza e carisma de sua atriz principal, cujo personagem "herda" seus poderes da heróina do filme anterior e passa a ser perseguida por Freddy. Os efeitos especiais ainda continuam ótimos pelo menos. E o humor negro de Freddy permanece mais afiado que nunca. Vale a pena se você não levar o filme a sério.

A Hora do Pesadelo 5 (1989): Freddy tenta voltar à vida por meio do feto da protagonista do quarto filme. Não precisa comentar mais nada sobre a proposta do filme... Sem pé nem cabeça! O longa só serve para revelar a horrenda origem de Krueger, fruto do estupro da enfermeira Amanda Krueger por dezenas de internos em um manicômio. Um dos piores filmes da saga, na minha opinião. Só não supera o trash do segundo...




O Pesadelo Final: A Morte de Freddy (1991): Este é, de fato, o último filme da saga. Cria-se um clima de despedida, onde alguns atores convidados participam com micro-aparições divertidas (Johnny Depp, Alice Cooper, Roseanne...). Pena que escreveram um péssimo roteiro para a conclusão da série. Descobrimos que Freddy tinha uma filha, e que ele perdeu a guarda da criança durante seu julgamento pelos crimes na rua Elm. Eis que ele volta para atormentar os sonhos de sua própria filha!! Sem dúvidas, um dos piores da saga. Desta vez, não se salva quase nada.


O Novo Pesadelo (1994): Devido ao péssimo final do filme anterior, que serviria para fechar a saga de Freddy Krueger, Wes Craven decide, novamente, intervir para tentar salvar a dignidade de sua criação. Desta vez, nos deparamos com um roteiro inteligente, diferente de tudo que se viu na série. Ele mostra o que aconteceria se Freddy deixasse a ficção para perseguir Heather Langemkamp, a atriz que interpretou a Nancy do filme de 1984, na vida real. Ótimas tiradas de humor negro, direção firme. Feito em comemoração aos 10 anos da série. Vale a pena, desde que esteja preparado para ver uma perspectiva diferente dos personagens e da estória. Na minha opinião, um dos mais originais.



"Vidas Secas", filme do consagrado diretor brasileiro Nélson Pereira dos Santos, realizado no ano de 1963, é uma adaptação fiel do clássico livro homônimo de Graciliano Ramos. A obra é, junto com "Deus e o Diabo na Terra do Sol" de Glauber Rocha, um dos maiores símbolos do ínicio do movimento cinematográfico do Cinema Novo e, até os dias de hoje, serve como referência e influência para a maioria dos grandes diretores brasileiros, como Walter Salles Júnior.


O filme narra a vida de uma família de retirantes em busca de sobrevivência pelo impiedoso sertão nordestino. Desde o começo, percebemos a estética diferenciada utilizada pelo diretor, com uma fotografia em preto e branco marcada pelo excesso de luminosidade, criando uma atmosfera quase "infernal" da caatinga. A intenção clara é mostrar uma face quase documental da vida sofrida e desumana dos retirantes nordestinos, sem eufemismos. Não há preocupação em explorar o lado "belo" da miséria, como muitos o fizeram posteriormente, afim de tornar a obra mais acessível às massas. A opção genuína do filme é exatamente essa: ser uma experiência cinematográfica difícil, monótona, massacrante, mimetizando assim a vida dessas pessoas.


A primeira metade do filme se foca mais no ambiente hostil que cerca os personagens. O silêncio impera na maior parte do tempo, sendo quebrado em momentos pontuais, servindo para reforçar ainda mais a notável incomunicabilidade entre os personagens. Uma cena deixa isso bem evidente, quando a família se aconchega ao redor de uma fogueira, nos primeiros minutos do filme, e iniciam um diálogo. Nota-se rapidamente que não existe, de fato, diálogo, mas monólogos paralelos de Fabiano e Sinhá Vitória. O ritmo lento, quase arrastado, do filme também é proposital, mostrando como a noção de tempo é percebida por essa parcela da população brasileira. Parece não existir fim para quem passa fome, sente sede, é castigado pelo sol dia após dia e ainda perde todo seu salário do mês com jogatina e bebida, como acontece com a família que acompanhamos no filme.


A segunda metade, ou melhor, os 30 minutos finais do filme, Nelson P. dos Santos decide se focar mais no aspecto psicológico dos personagens. Após Fabiano ter perdido todo o sustento de sua família no jogo e vai parar na prisão, o chão desmorona por completo e o fio de esperança e sanidade mental preservados, até então, precariamente, parece se esvair rapidamente. Sinhá Vitória é a mais abalada psicológicamente, terminando por dizer, quando está na cozinha, na frente do fogo escaldante: "queria morrer pra acabar com tudo isso". Um dos meninos, o mais apegado à cachorra Baleia, repete interminávelmente para si mesmo: "Inferno, Inferno, Inferno...", questionando se o local onde vivem não seria o próprio inferno. Já Fabiano, decide por culpabilizar a própria natureza pela sua sina trágica: Culpa o sol escaldante por secar a água, que mata o gado de sede; culpa as aves, que bebem a pouca água existente das poças; Inclusive Baleia, fiel cachorra e companheira, que antes era aplaudida alegremente por caçar preás para alimentar a família, é considerada um estorvo no fim do filme, pois está fraca e doente após o castigo do sol, sendo assim executada.


É importante frisar algumas cenas especiais do filme. A primeira, que mostra os personagens contemplando o vôo das aves no sertão. Esta cena mostra que, apesar de sua estética difícil, sem falso glamour, é sempre possível enxergar o belo, mesmo que estejamos no inferno. A cena é antológica: um vôo sincronizado, que mais parece um baile, significando a ordem no mais puro caos. Apesar de fascinado, pouco depois o encanto se quebra: Fabiano parte para a ofensiva, tentando atirar nas mesmas aves que contemplava, pois as culpa, como foi dito anteriormente, pela morte do gado.


A segunda cena, não por acaso a mais conhecida do filme, é também a mais bela:a morte de Baleia. A cachorra é a personagem mais humana da obra de Graciliano Ramos, e sua transposição para as telas não poderia ter sido mais perfeita. A "interpretação" de Baleia foi tão aclamada pelo público mundo afora que, na ocasião do Festival de Cannes, quando o filme foi indicado à Palma de Ouro, a cachorra também acompanhou o elenco à premiação francesa, mobilizando a todos do mundo do cinema. Houve, inclusive, protestos de certos orgãos de proteção aos animais, convencidos que Baleia tinha sido verdadeiramente morta durante as gravações. Nos seus momentos finais, Baleia, já agonizando, tem início o mais sublime dos delírios: sonha com um sertão repleto de preás, para receber o doce afago de seus donos. Impossível não se comover com a cena, uma das mais emocionantes da história do cinema (na minha opinião). No ano de 2002, foi feito um curta-metragem, "Como se Morre no Cinema", que narra a história do papagaio que participou das filmagens, e da cachorra Baleia, mostrando bastidores do filme e depoimentos de cineastas.


Para finalizar, a terceira cena que considero antológica: Após decidirem tomar um novo rumo e buscar uma nova moradia, num local menos inóspito, a família caminha no meio do mato, no meio do nada, como no início do filme, sem um horizonte. Sinhá Vitória, tentando tirar Fabiano do mais profundo estupor, faz os questionamentos mais importantes do filme: “Como num havemo de ser gente um dia? Gente que dorme em cama de couro. Por que havemo de ser sempre desgraçado? Fugindo no mato que nem bicho. Podemo viver como sempre, fugindo que nem bicho”? A seguir, Fabiano, num momento raro de clareza, confirma: não podem mais viver como bichos! Assim, seguem seu rumo, simplesmente seguindo adiante, até o desfecho do filme. Abre-se um plano amplo; não mais temos a vegetação encobrindo (ou seria engolindo?) os personagens, aparentemente conseguindo se libertar de suas amarras e tendo como destino a cidade. Mas, da sensação de libertação repentina, vem a sensação de impotência: a medida que avançam, vão diminuindo de tamanho, até sumir naquela imensidão ensolarada (será uma previsão dos futuros acontecimentos da vida urbana?). Final de múltiplas interpretações mas, inegávelmente, poético.


"Vidas Secas" foi o único filme brasileiro a ser indicado pelo British Film Institute como uma das 360 obras fundamentais em uma cinemateca.

Premiações

- Prêmio do OCIC e prêmio dos Cinemas de Arte em Cannes, 1964.

- Melhor Filme na Resenha de Cinema de Gênova, 1965.


Nota: 9,0
Daniel Hetzel

"A Partida" (Okuribito), filme do diretor japonês Yojiro Takita, de muito renome no Japão mas ainda pouco conhecido mundo afora, é daqueles filmes que marcam nossas vidas. O tema abordado é difícil, muita gente não gosta nem de tocar no assunto: a morte. Porém, o que vemos no filme é uma abordagem muito mais ampla e respeitosa da morte. O enredo fala de um violoncelista, Daigo Kobayashi, que acaba de ver seus sonhos como grande músico virem abaixo, quando é despedido da orquestra onde tocava, em Tokio. Frustrado, decide voltar para suas raízes, no interior onde passou toda sua infância. Ao chegar, inicia-se um recomeço, cheio de memórias e uma grande surpresa: seu novo trabalho como embalsamador de cadáveres, trabalho muitas vezes alvo de preconceito no Japão. O próprio Daigo inicia sua nova empreitada repleto de desconfiança e pensando unicamente na compensação financeira mas, aos poucos, vai vivenciando experiências enriquecedoras e carregadas de grande emoção, ao perceber o respeito e dedicação de seu chefe ao "preparar" os mortos, com gestos firmes e precisos, repletos de delicadeza, na frente de todos os familiares, aliviando um pouco a dor que a separação da morte os traz.


As tradições japonesas não são completamente compreendidas na cultura ocidental mas, mesmo que alguns tenham algum sentimento de estranheza com certos hábitos pouco convencionais, como a presença marcante das casas de banho no filme, os alimentos crus, a própria profissão de embalsamador como é praticada lá no Japão, o uso das "pedras sentimentais", tudo isso é mostrado no filme dentro de um contexto tão universal e belo que praticamente esquecemos o quanto nossas culturas são distantes, e criamos uma empatia enorme com o personagem de Daigo, enxergando sua percepção evoluir à medida que o filme passa, chegando até o final arrebatador.

É uma obra-prima japonesa, que ganhou merecidamente o Oscar de melhor filme estrangeiro do ano passado, deixando pra trás os mais badalados "Valsa com Bashir" de Israel e o francês "Entre os muros da escola". Vale ressaltar também a dedicação do ator Masahiro Motoki e do diretor Takita, que estudaram durante uma década o ritual fúnebre para assim apresentarem uma obra mais convincente. o ator Masahiro Motoki, inclusive, aprendeu a tocar violoncelo de verdade nesse tempo. Não podemos esquecer um dos pontos mais altos do filme: a trilha sonora, composta por Joe Hisaishi, mesmo de "Castelo Animado"e “Viagem de Chihiro”. A trilha é, sem dúvida, inesquecível, e encaixa perfeitamente na narrativa, daquelas que fazem nossas emoções ficarem à flor da pele.

O filme só reforça a força crescente do cinema oriental, e os muitos prêmios internacionais ganhos pelo filme ajudam a ganhar essa visibilidade, para um cinema tão sensível e ainda pouco conhecido por nós. Enquanto esperamos ansiosos por mais obras-primas da terra do sol nascente, bato palmas de pé para este filme magnífico que, desde já, tem um cantinho especial reservado em minhas mais belas memórias.

Nota: 10
Daniel Hetzel



"Je Vous Salue, Marie" (traduzido no Brasil originalmente como "Ave Maria"), filme do reconhecido diretor francês Jean-Luc Godard filmado em 1985, é uma típica obra autoral. O enredo nos mostra uma perspectiva diferente sobre a concepção da Virgem Maria e suas consequências. O nascimento de Jesus fica em segundo plano, focando completamente na visão intimista de Maria e seus embates psicológicos e físicos, sua dicotomia interna entre o corpo e a alma. Reflexões profundas sobre nosso papel na Terra, o papel do Divino, antigos debates sobre "de onde viemos" e "para onde vamos", tudo é abordado no filme de forma magistral, com uma fotografia que nos faz contemplar o verdadeiro divino que nos cerca.

O tema central da concepção de Maria é transportada para os dias atuais, e provoca o espectador com as mesmas questões filosóficas de outrora, demonstrando a força milenar de tais questionamentos. A busca por este equilibrio interno, entre corpo e alma, nunca é bem sucedida. Pelo contrário, mostra-se, durante todo o filme, a necessidade do ser humano em escolher um dos dois mundos: a carne, a sexualidade, suas necessidades físicas primordiais, instintivas; ou a alma, a espiritualidade plena e imaculada, a pureza absoluta, a negação de todos os nossos instintos e sentidos. Godard nos mostra sua visão de Maria, bem diferente do imaginário popular: ao invés da passividade em pessoa, uma mulher de personalidade forte, que domina a situação (pelo menos, na frente das outras pessoas, principalmente em relação a José) e demonstra um humanismo tocante, passando por fases distintas de negação, resignação e aceitação que fazem com que se questione sobre sua concepção imaculada: terá sido benção ou castigo divino?

O filme também é, à sua maneira, uma homenagem ao divino feminino, sua importância na ordem de todas as coisas. Godard nos contempla com um filme polêmico, complexo, que exige sensibilidade de sua platéia. Trata-se de uma obra-prima atemporal, universal, como as questões tratadas durante a película. Infelizmente, a obra foi proibida em muitos países na época de sua estréia, e foi alvo de perseguições politico-religiosas até muito pouco tempo atrás. Por tais razões, permanece um de seus filmes menos conhecidos do grande público, ainda a ser descoberto pelas mentes criativas e ávidas por obras autorais de qualidade inquestionável como esta.
Reconheço não ser um grande conhecedor da obra de Jean Luc Godard, um dos grandes expoentes da Nouvelle Vague francesa, mas este filme aguçou meu apetite para, futuramente, devorar todos os seus filmes, da mesma forma que Godard nos mostra o quanto ama fazer cinema, sem o complexo de Deus de outros cineastas.

Nota:8,5

Daniel Hetzel


Protesto contra a censura ao filme "Je vous salue, Marie", que teve sua estréia proibida no Brasil


Alice no país das maravilhas... Esse nome não necessita de apresentações. Portanto, não vou perder tempo contando o enredo dessa fábula infanto-juvenil que encantou inúmeras gerações desde que foi escrita no ano de 1865 por Lewis Carroll. A obra é, até os dias de hoje, considerada o maior símbolo da literatura surrealista e non-sense, sendo aclamada por muitos como A obra clássica da literatura inglesa. Teve inúmeras adaptações cinematográficas e televisivas. Entretanto, a intenção de Tim Burton era de recriar o mundo fantástico de Lewis Carroll à sua imagem, como vem fazendo cada vez mais frequentemente, em filmes como "A Lenda do Cavaleiro sem cabeça", "Planeta dos Macacos", "A Fantástica Fábrica de Chocolate", "Batman" e "Batman - o Retorno". À exceção dos filmes baseados no Cavaleiro das Trevas, todas as suas adaptações foram mal-sucedidas, ficando bem abaixo de seus originais.

Alice no país das Maravilhas não foi diferente, infelizmente. Não nego que tinha expectativas altíssimas acerca deste filme, pois sou fã declarado da obra de Tim Burton e, mais ainda, de Alice, que considero uma das obras mais brilhantes da literatura mundial. A obra é repleta de nuances interpretativas, perfeita para se desfrutar quando criança e, melhor ainda, quando atingimos a vida adulta, quando começamos a entender várias de suas alusões satíricas e suas referências linguísticas e matemáticas, frequentemente colocadas na obra sob forma de enigmas, tornando um deleite à parte tentar desvendá-las ou até mesmo encontrá-las. Outro ponto importante sobre a obra é o seu tom, sombrio em demasia para uma obra infanto-juvenil, aumentando assim o fascínio do público adulto.

Tim Burton se consagrou com filmes que nitidamente imprimiam esse tom mais sombrio, como nos já clássicos "O Estranho Mundo de Jack", "Edward maõs de tesoura", "Beetlejuice - os fantasmas se divertem" e os já citados "Batman" e "Batman - O Retorno". Ele também se notabilizou em criar mundos fantásticos repletos de elementos e personagens inesquecíveis.

Depois de tudo que foi exposto, impossível não fazer a pergunta: Não parece o casamento perfeito, Alice no país das maravilhas e Tim Burton? Pessoalmente, acreditava que sim...
Infelizmente, a recente soberba de Burton de recriar tudo que já é consagrado, na tentativa de torná-la melhor, está, aos poucos, tornando-o motivo de piada. Burton é, indubitávelmente, uma das mentes mais criativas que surgiram em Hollywood nos últimos 20 anos. Criou uma das parcerias mais frutíferas do cinema com Johnny Depp e sua mulher Helena Bonham Carter. Porém, nem mesmo a combinação de todos esses fatores, que pareciam conspirar a favor de uma das mais belas adaptações de todos os tempos, foi insuficiente para fazer uma obra no mínimo eficiente.

O filme é um caleidoscópio, repleto de cores vivas e uma explosão de efeitos visuais, mas não consegue, surpreendentemente, prender a atenção do espectador em nenhum momento. A narrativa é monótona, os personagens perderam o carisma da história original, sendo reféns dos efeitos em 3D, que estão longe de impressionar como o fez Avatar. Inclusive os atores encontram-se superficiais e caricatos, principalmente Johnny Depp como o chapeleiro maluco e Anne Hathaway como a insossa rainha branca. Porém, justiça seja feita, Helena Bonham Carter é a única e grata exceção, fazendo com maestria habitual uma histéri
ca e hilariante rainha de copas. Muito se fala em Johnny Depp mas, na minha humilde opinião, considero Helena Bonham Carter uma atriz muito mais talentosa e marcante, jamais caindo na pieguice ou no exagero, como Depp ocasionalmente faz.

Enfim, Alice decepciona do começo ao fim, frustrando um mundo inteiro de amantes da sétima arte, da literatura fantástica e, principalmente, aos tolos esperançosos que aguardavam ansiosos por aquele mundo repleto de magia do passado. Pelo jeito, a magia abandonou Tim Burton de vez, transformando um dos mais belos clássicos infantis num dos maiores naufrágios da história do cinema.

Nota: 5,0
Daniel Hetzel


Em "A Fita Branca" ( Das Weisse Band), novo filme do diretor austríaco Michael Haneke, é daqueles filmes impossíveis de ficar indiferente. Logo no início do filme, o narrador avisa: "Os eventos que se passaram ali, naquele vilarejo, no início do século, são de extrema importância para se compreender os eventos dramáticos que aconteceriam na Alemanha, décadas depois".Ficam logo claras as intenções do diretor em debater sobre as origens do nazismo. É exatamente aí que mora o grande perigo do filme...
Estranhos fatos vão se sucedendo numa pacata aldeia protestante no Norte de uma Alemanha pré-primeira guerra. A violência, tema recorrente dos filmes de Haneke, desta vez é muito mais psicológica, sendo muito mais aterrorizante a frieza coletiva ou o silêncio perturbador com que lidam certos personagens perante seus terríveis segredos. A fotografia em preto e branco que permeia todo o filme é fundamental para se criar este clima cru e agressivo. O uso da fita branca, significado de pureza, é utilizado por duas crianças afim de lembrá-los constantemente de seus pecados. Esta marca simbólica é fundamental para a trama, pois o uso das fitas não é fruto do acaso, servindo como antevisão da estrela de David usada pelos judeus durante boa parte do Terceiro Reich. Outro elemento importante que nos remete ao horror do Nazismo é o desprezo pelos deficientes físicos por parte dos habitantes da aldeia, terminando por ter seus olhos furados. Sabe-se, historicamente, que milhares de deficientes mentais alemães foram assassinados com o intuito de eliminar os incapazes da sociedade alemã. Este fato foi considerado um prelúdio do que aconteceria aos judeus na segunda guerra.
O grande defeito do filme é, ao mesmo tempo, enxergado por outros como sua grande qualidade: o roteiro. Do meu ponto de vista, o argumento utilizado pelo diretor é muito simplista. Ele peca ao tentar fazer uma análise profunda da origem do Holocausto, buscando suas raízes num sistema autoritário e altamente hierárquico da sociedade alemã do início do século passado. Haneke busca as raízes do nazismo num sistema quase feudal, altamente patriarcal e moralmente falida e, desta forma, acaba simplificando muito a discussão de temas muito mais interessantes ao centralizar seu argumento na Alemanha. Obviamente, sociedades que funcionaram e funcionam até hoje sob esses moldes não ficam restritas à Alemanha. O que nos faria pensar que o autoritarismo patriarcal na Alemanha era mais intenso do que em outros países Europeus, para se restringir "apenas" ao velho continente? Sabe-se que o antisemitismo era muito mais forte na França e na Rússia, maiores apostas dos estudiosos da época para se explodir o Holocausto.
A tese defendida pelo diretor Haneke germaniza o Holocausto, particularizando a tragédia. Considero um erro grave esquecer do caráter mundial desse acontecimento, abraçado por várias culturas, inclusive a Áustria, país de origem do diretor, que recebeu os nazistas com flores. Existe um trabalho publicado pelo famoso sociólogo Zygmunt Bauman, publicado em 1989, que rejeita essa germanização do Holocausto. Em suas palavras: "O Holocausto nasceu e foi executado na nossa sociedade moderna e racional, em nosso alto estágio de civilização e no auge do desenvolvimento cultural humano e, por essa razão, é um problema dessa sociedade." Tratar do Holocausto como uma questão de patologia psicológica em massa e exclusivamente alemã seria ignorar a incômoda verdade de que o holocausto é um símbolo do fracasso da modernidade. O Holocausto, repito, foi uma tragédia planetária, e germanizá-lo seria uma cegueira perigosa.
Infelizmente, o diretor perdeu uma grande chance de debater um tema muito mais profundo e igualmente universal: a origem do mal. Muitas vezes, os crimes não vem acompanhados de pistas à la Sherlock Holmes, e o horror pode vir escondido no rosto anjelical de uma criança. Todos os elementos estão lá. Se não fossem as palavras claras do narrador, poderíamos ter interpretado a obra de forma bem mais ousada e interessante.
Lembrando que o filme foi indicado ao Oscar de melhor filme Estrangeiro de 2010 e ganhou a Palma de Ouro do Festival de Cannes de 2009. Evidentemente, não concordo com a glorificação exagerada ao filme, pelos motivos já expostos. Mas, como se trata de um filme polêmico, o debate está aberto!

Nota: 6,0
Daniel Hetzel

De vez em quando, filmes ambientados num mundo pós-apocaliptico voltam à tona. Alguns (leia-se poucos), interessados em promover a reflexão sobre os perigos da vida moderna e a falta de preocupação necessária com o meio ambiente. Outros (a imensa maioria), preocupados unicamente em rechear ainda mais os cofres das grandes produtoras Hollywoodianas. Este é o caso dos dois últimos filmes do gênero, recém-lançados nas telonas. Em nenhuma das duas produções, existe qualquer tipo de explicação clara sobre o motivo de tal destino cruel que se abateu sobre a Terra, apenas menções rápidas e vagas sobre o acontecido. Torna-se impossível, desta forma, debater qualquer assunto relevante que tenha provocado tamanha atrocidade. Apesar do pano de fundo similar, existem diferenças consideráveis entre os dois filmes.



O livro de Eli (The Book of Eli), apesar de não ter nenhum propósito reflexivo, pode ser considerado um bom filme de ação, contendo boas cenas de luta, ótima fotografia e uma direção ágil e eficiente, com sequências rápidas que funcionam se for visto sob a ótica de puro entretenimento. O elenco é o grande trunfo do filme, com Denzel Washington interpretando o papel do andarilho predestinado a salvar a humanidade de sua própria bestialidade, graças ao seu misterioso livro e suas visões divinas, dignas do livro Gênesis do Antigo Testamento. Cabe a Gary Oldman (ótimo como sempre!) fazer o papel do vilão, um tipo de xerife corrupto de uma pequena vila de sobreviventes no meio do nada, que persegue o heróico andarilho com o intuito de colocar as mãos no livro sagrado, afim de "domesticar" a população de uma vez por todas.


Interessante polêmica, certamente não proposital: Seriam as escrituras uma forma de "domesticar" as massas, utilizadas por regimes autoritários/ditatoriais? O final do filme, ao mesmo tempo surpreendente, torna-se incômodo aos não-cristãos, pois revela-se claramente a maior intenção do filme: pregação religiosa. Ou melhor, pregação judaico-cristã. Em nenhum momento, se menciona outra religião importante, deixando a clara mensagem que a única forma de salvar a humanidade do caos absoluto é o caminho do Cristianismo. Não é por acaso que o personagem de Eli persegue o objetivo de sempre trilhar seu caminho voltado para o Oeste, já que toda a civilização ocidental é enraizada em preceitos judaico-cristãos. Enfim, filme polêmico, alvo de debates mas, inegavelmente, um eficiente filme de ação.





A paisagem árida pós-apocalíptica em "O livro de Eli"




Já o filme "A Estrada" (The Road), estrelado por Viggo Mortensen, o eterno Aragorn da trilogia Senhor dos Anéis, e dirigido por John Hillcoat, é possivelmente uma das maiores decepções recentes do cinema Americano. O filme é uma adaptação ao cinema do premiado romance de Cormac McCarthy (autor dos livros que deram origem a "Espírito Selvagem" e "Onde os fracos não têm vez"), vencedor do prêmio Pulitzer de 2007, maior honraria da literatura após o prêmio Nobel. "A Estrada" representa uma mudança surpreendente na ficção de Cormac McCarthy e talvez seja sua obra-prima. Desnecessário dizer que havia uma enorme expectativa quanto ao filme. Mas, infelizmente, todo o peso dramático existente no livro desaparece do filme.

A profunda relação entre pai e filho vira secundário, num filme que lembra "A vida é bela", por tratar de um tema de tamanha crueza e seriedade como se fosse algo passageiro e passível de eufemismos. Grandes atores, como Robert Duvall, Guy Pearce e a bela Charlize Theron, fazem papéis secundários no filme, mas Duvall é o único que consegue deixar seu brilho por onde passa. Viggo Mortensen parece completamente perdido em seu papel, presumivelmente incapaz de fazer a transposição das características dramáticas de seu personagem do livro para a película.

Obviamente, a direção peca em quase todos os sentidos: falta ritmo, veracidade, congruência à trama. A fotografia, trunfo da maioria dos filmes do gênero, passa despercebida. A esperança, retratada de forma comovente no livro, beira o dramalhão no filme, com frases clichês e piegas. Caso consigam chegar até o final, preparem-se... É quase uma punhalada no coração, de tão inverossímel que é a conclusão...


Daniel Hetzel

O Livro de Eli: 7,0

A Estrada: 4,0



Paisagem apocalíptica em "A Estrada"