De vez em quando, filmes ambientados num mundo pós-apocaliptico voltam à tona. Alguns (leia-se poucos), interessados em promover a reflexão sobre os perigos da vida moderna e a falta de preocupação necessária com o meio ambiente. Outros (a imensa maioria), preocupados unicamente em rechear ainda mais os cofres das grandes produtoras Hollywoodianas. Este é o caso dos dois últimos filmes do gênero, recém-lançados nas telonas. Em nenhuma das duas produções, existe qualquer tipo de explicação clara sobre o motivo de tal destino cruel que se abateu sobre a Terra, apenas menções rápidas e vagas sobre o acontecido. Torna-se impossível, desta forma, debater qualquer assunto relevante que tenha provocado tamanha atrocidade. Apesar do pano de fundo similar, existem diferenças consideráveis entre os dois filmes.



O livro de Eli (The Book of Eli), apesar de não ter nenhum propósito reflexivo, pode ser considerado um bom filme de ação, contendo boas cenas de luta, ótima fotografia e uma direção ágil e eficiente, com sequências rápidas que funcionam se for visto sob a ótica de puro entretenimento. O elenco é o grande trunfo do filme, com Denzel Washington interpretando o papel do andarilho predestinado a salvar a humanidade de sua própria bestialidade, graças ao seu misterioso livro e suas visões divinas, dignas do livro Gênesis do Antigo Testamento. Cabe a Gary Oldman (ótimo como sempre!) fazer o papel do vilão, um tipo de xerife corrupto de uma pequena vila de sobreviventes no meio do nada, que persegue o heróico andarilho com o intuito de colocar as mãos no livro sagrado, afim de "domesticar" a população de uma vez por todas.


Interessante polêmica, certamente não proposital: Seriam as escrituras uma forma de "domesticar" as massas, utilizadas por regimes autoritários/ditatoriais? O final do filme, ao mesmo tempo surpreendente, torna-se incômodo aos não-cristãos, pois revela-se claramente a maior intenção do filme: pregação religiosa. Ou melhor, pregação judaico-cristã. Em nenhum momento, se menciona outra religião importante, deixando a clara mensagem que a única forma de salvar a humanidade do caos absoluto é o caminho do Cristianismo. Não é por acaso que o personagem de Eli persegue o objetivo de sempre trilhar seu caminho voltado para o Oeste, já que toda a civilização ocidental é enraizada em preceitos judaico-cristãos. Enfim, filme polêmico, alvo de debates mas, inegavelmente, um eficiente filme de ação.





A paisagem árida pós-apocalíptica em "O livro de Eli"




Já o filme "A Estrada" (The Road), estrelado por Viggo Mortensen, o eterno Aragorn da trilogia Senhor dos Anéis, e dirigido por John Hillcoat, é possivelmente uma das maiores decepções recentes do cinema Americano. O filme é uma adaptação ao cinema do premiado romance de Cormac McCarthy (autor dos livros que deram origem a "Espírito Selvagem" e "Onde os fracos não têm vez"), vencedor do prêmio Pulitzer de 2007, maior honraria da literatura após o prêmio Nobel. "A Estrada" representa uma mudança surpreendente na ficção de Cormac McCarthy e talvez seja sua obra-prima. Desnecessário dizer que havia uma enorme expectativa quanto ao filme. Mas, infelizmente, todo o peso dramático existente no livro desaparece do filme.

A profunda relação entre pai e filho vira secundário, num filme que lembra "A vida é bela", por tratar de um tema de tamanha crueza e seriedade como se fosse algo passageiro e passível de eufemismos. Grandes atores, como Robert Duvall, Guy Pearce e a bela Charlize Theron, fazem papéis secundários no filme, mas Duvall é o único que consegue deixar seu brilho por onde passa. Viggo Mortensen parece completamente perdido em seu papel, presumivelmente incapaz de fazer a transposição das características dramáticas de seu personagem do livro para a película.

Obviamente, a direção peca em quase todos os sentidos: falta ritmo, veracidade, congruência à trama. A fotografia, trunfo da maioria dos filmes do gênero, passa despercebida. A esperança, retratada de forma comovente no livro, beira o dramalhão no filme, com frases clichês e piegas. Caso consigam chegar até o final, preparem-se... É quase uma punhalada no coração, de tão inverossímel que é a conclusão...


Daniel Hetzel

O Livro de Eli: 7,0

A Estrada: 4,0



Paisagem apocalíptica em "A Estrada"


1 Response
  1. Anônimo Says:

    Ainda não vi o filme A Estrada, e com sua crítica, não farei questão de ver... Concordo com o que disse sobre o Livro de Eli, e exagero um pouco através do que senti ao assistir o filme: Achei uma apelação religiosa! O filme não mostrou absolutamente nada além da salvação do mundo devido ao cristianismo. Esperava uma mensagem muito mais concreta. E toda essa pregação religiosa em volta do caos, com mortes violentas pelo próprio "mocinho de Deus"??? Contraditório, não? Realmente como filme de ação é ótimo...


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