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"A Partida" (Okuribito), filme do diretor japonês Yojiro Takita, de muito renome no Japão mas ainda pouco conhecido mundo afora, é daqueles filmes que marcam nossas vidas. O tema abordado é difícil, muita gente não gosta nem de tocar no assunto: a morte. Porém, o que vemos no filme é uma abordagem muito mais ampla e respeitosa da morte. O enredo fala de um violoncelista, Daigo Kobayashi, que acaba de ver seus sonhos como grande músico virem abaixo, quando é despedido da orquestra onde tocava, em Tokio. Frustrado, decide voltar para suas raízes, no interior onde passou toda sua infância. Ao chegar, inicia-se um recomeço, cheio de memórias e uma grande surpresa: seu novo trabalho como embalsamador de cadáveres, trabalho muitas vezes alvo de preconceito no Japão. O próprio Daigo inicia sua nova empreitada repleto de desconfiança e pensando unicamente na compensação financeira mas, aos poucos, vai vivenciando experiências enriquecedoras e carregadas de grande emoção, ao perceber o respeito e dedicação de seu chefe ao "preparar" os mortos, com gestos firmes e precisos, repletos de delicadeza, na frente de todos os familiares, aliviando um pouco a dor que a separação da morte os traz.


As tradições japonesas não são completamente compreendidas na cultura ocidental mas, mesmo que alguns tenham algum sentimento de estranheza com certos hábitos pouco convencionais, como a presença marcante das casas de banho no filme, os alimentos crus, a própria profissão de embalsamador como é praticada lá no Japão, o uso das "pedras sentimentais", tudo isso é mostrado no filme dentro de um contexto tão universal e belo que praticamente esquecemos o quanto nossas culturas são distantes, e criamos uma empatia enorme com o personagem de Daigo, enxergando sua percepção evoluir à medida que o filme passa, chegando até o final arrebatador.

É uma obra-prima japonesa, que ganhou merecidamente o Oscar de melhor filme estrangeiro do ano passado, deixando pra trás os mais badalados "Valsa com Bashir" de Israel e o francês "Entre os muros da escola". Vale ressaltar também a dedicação do ator Masahiro Motoki e do diretor Takita, que estudaram durante uma década o ritual fúnebre para assim apresentarem uma obra mais convincente. o ator Masahiro Motoki, inclusive, aprendeu a tocar violoncelo de verdade nesse tempo. Não podemos esquecer um dos pontos mais altos do filme: a trilha sonora, composta por Joe Hisaishi, mesmo de "Castelo Animado"e “Viagem de Chihiro”. A trilha é, sem dúvida, inesquecível, e encaixa perfeitamente na narrativa, daquelas que fazem nossas emoções ficarem à flor da pele.

O filme só reforça a força crescente do cinema oriental, e os muitos prêmios internacionais ganhos pelo filme ajudam a ganhar essa visibilidade, para um cinema tão sensível e ainda pouco conhecido por nós. Enquanto esperamos ansiosos por mais obras-primas da terra do sol nascente, bato palmas de pé para este filme magnífico que, desde já, tem um cantinho especial reservado em minhas mais belas memórias.

Nota: 10
Daniel Hetzel