"Querido Frankie" (Dear Frankie) é um dos tantos filmes existentes mundo afora que não ganham a devida projeção por não terem o apoio financeiro e comercial necessário da cada vez mais massificante indústria cinematográfica. Dirigido por Shona Auerbace, escocesa que fez seus estudos na renomada escola polonesa de cinema, e com roteiro de Andrea Gibb, o filme conta a estória de um amor incondicional de uma jovem mãe pelo seu filho surdo. Tentando proteger Frankie (Jack McElhone) da verdade, Lizzy (Emily Mortimer) começa a escrever cartas em nome de um pai fictício, que trabalha a bordo de um navio que passa por terras exóticas. Porém, o tal navio decide aportar na cidade que eles se encontram, o que faz com que ela tenha que escolher entre contar a verdade ou contratar um estranho (Gerard Butler), sem passado, presente ou futuro, para se passar pelo pai de Frankie por um único dia.

O filme, fosse colocado em mãos menos talentosas, poderia ter se transformado numa obra piegas e melodramática, repleta de clichês. Porém, a sensibilidade de Shona transborda na tela, criando uma trama convincente e repleta de ternura. A fotografia também ficou a cargo de Auerbace, que foi particularmente exigente neste aspecto, selecionando criteriosamente sua paleta de cores, com uma ausência de branco e apenas respingos ocasionais de azul, tornando o tom predominantemente pastel bastante característico do clima escocês, úmido e frio, sem diminuir em nada sua extenuante beleza.

O elenco é outro ponto forte do filme, tendo atuações inspiradas de todos os atores. O talento nato do garoto que interpreta Frankie é notável, e a química entre os personagens de Butler e Emily Mortimer é tamanha que a famosa cena do beijo chega a ser exasperante de tão intensa. A bela cena de dança, boa parte filmada em slow-motion, teve metade de sua duração cortada, pois a segunda parte foi filmada em preto e branco e não agradou aos produtores, que entendem de dinheiro mas nada de arte. Vale a pena dar uma conferida na versão integral da cena, disponível no DVD. Emily Mortimer, ao meu ver, tem um enorme potencial, e adoraria vê-la futuramente em outras produções. Poucas atrizes "desconhecidas" (por mim pelo menos) conseguiram me impressionar tanto, pela entrega e pela sua naturalidade em cena.

Outro aspecto maravilhoso do filme é a trilha sonora, repleta de ótimas canções, em sua maioria de compositores irlandeses e escoceses. A trilha entra em total sintonia com as situações vividas pelos personagens, aumentando exponencialmente a carga dramática e, pontualmente, romântica. Porém, o silêncio também é explorado na obra, fazendo parte da caracterização do personagem de Frankie. Evitou-se de forma sublime os diálogos desnecessários, comuns nos filmes Hollywoodianos.

A obra foi selecionada por todos os grandes festivais internacionais de 2004, incluindo Cannes, mas estacionou aí. Premios, apenas de festivais menos expressivos, como o de Seattle, o de Los Angeles e o Heartland Film Festival. Bem menos do que deveria e merecia. Mas, certamente, esse pequeno poema em forma de filme será sempre lembrado pelos verdadeiros amantes da sétima arte ou simplesmente por pessoas que desfrutam de uma bela e sensível fábula onde a arte imita a vida.

Nota: 9,0
Daniel Hetzel
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