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Um olhar do paraíso (The Lovely Bones, 2009) é o mais recente trabalho do famoso diretor Peter Jackson, que ficou mundialmente conhecido com a Trilogia Senhor dos Anéis. O drama narra a história de uma garota de 14 anos, Susie Salmon, brutalmente assassinada por um vizinho pedófilo, e a repercussão de tal tragédia na vida de seus entes queridos. Os acontecimentos são narrados pela própria Susie, que permanece numa espécie de purgatório pessoal onde pode visualizar o cotidiano de todos, de forma omnipresente. Seu desejo de vingança mistura-se a um profundo pesar pela perda de seus familiares e o tão sonhado primeiro beijo com sua primeira paixão de adolescente.
Peter Jackson consegue, de forma sempre eficiente, criar uma profunda empatia entre os personagens e o espectador. Muito se falou sobre o excesso de efeitos especiais da obra, para alguns desnecessário, para outros prejudicial, pois a trama perderia em profundidade, escondendo suas deficiências narrativas. Discordo desse ponto de vista. Existe, de fato, uma vasta quantidade de efeitos especiais, que acabam lembrando visualmente o filme Amor Além da Vida, mas em nenhum momento destoam ou tiram o foco da trama. No entanto, como se trata de uma adaptação do romance homônimo de Alice Sebold, que se tornou rapidamente um best-seller, adquirindo uma legião de seguidores no mundo todo, as expectativas acerca de sua transposição para as telas cresceram exponencialmente. Soube que houveram mudanças em relação ao livro que desagradaram bastante uma parcela do público, mas faz-se necessário compreender as diferenças entre os dois formatos artísticos, algumas vezes intransponíveis.
Sobre o elenco, destaque para a ótima atuação de Stanley Tucci como o vizinho pedófilo, que acabou recebendo uma indicação ao Oscar de melhor ator coadjuvante deste ano, e a comovente interpretação da jovem atriz Saoirse Ronan, na pele de Susie Salmon. O filme também conta com a presença do astro Mark Wahlberg e a sempre competente e bela Rachel Weisz, como os pais de Susie.
A fotografia, como em todos os trabalhos de Jackson, está estonteante, e a trilha sonora que permeia a história ajuda a criar o emaranhado de emoções que compõem a obra. Apesar de alguns clichês, principalmente no final do filme, trata-se de um roteiro bem interessante, que não perde folego em seus 135 minutos de duração.
Faço parte do grupo dos defensores do trabalho de Peter Jackson, infelizmente tratado por alguns críticos como um diretor megalomaníaco e que peca pelo excesso. Um Olhar do Paraíso é mais uma bela obra de Jackson, que sabe como poucos, assim como James Cameron, extrair todo o potencial da tecnologia atual para contar uma boa história. E nos encantar com ela.

Nota: 8,0
Daniel Hetzel

Direito de Amar (A Single Man, 2009): Dirigido pelo estreante Tom Ford, estilista de moda que abraçou o projeto a ponto de financiar parte dos gastos. Baseado no romance homônimo de Christopher Isherwood, o filme narra a vida de um professor Britânico gay erradicado na California da década de 60, que tem que lidar com a farsa que se tornou sua vida e a trágica morte de seu grande amor. O elenco tem como protagonistas os excelentes Colin Firth e Julianne Moore, ambos em papéis memoráveis, recompensados com diversas indicações de melhor ator e atriz coadjuvante, incluindo o Oscar (para Colin Firth) e Globo de Ouro (para ambos). Colin Firth ganhou o BAFTA de 2010 de melhor ator. Bela fotografia e trilha sonora poderosa ajudam a ditar o ritmo da obra, que apesar de lento, traduz de forma eficaz a percepção de seu personagem principal. Nota: 7,5


Oscar e Lucinda, uma História de Amor(Oscar e Lucinda, 1997): Dirigido por Gillian Armstrong e baseado em livro homônimo de Peter Carey. O filme se passa na Austrália e Inglaterra do século 19 e narra a vida de um pastor anglicano viciado em jogo que encontra sua alma gêmea numa mulher de grande espírito livre, herdeira de grande fortuna mas também compulsiva por jogo. Estrelado por Ralph Fiennes e Cate Blanchett nos papéis principais, e Tom Wilkinson vivendo o mentor religioso de Fiennes. As atuações de Fiennes e Blanchett estão arrebatadoras, como sempre. A fotografia é lindíssima, mostrando as belas paisagens australianas. Porém, o enredo é confuso, as situações não convencem o espectador, paradoxalmente ás interpretações incrivelmente verossímeis de Fiennes e Blanchett, Uma pena. Fica a sensação que poderia ter ido mais longe.
Nota: 6,0

A Balada de Jack e Rose (The Ballad of Jack and Rose, 2005): Dirigido por Rebecca Miller, conta a estória de um amor entre pai e filha que ultrapassa as barreiras aceitas pela sociedade. Eles vivem isolados do mundo moderno em uma pequena ilha dos Estados Unidos, no que restou de uma pequena comuna hippie dos anos 60 e seus ideais naturalistas. Estrelado por Daniel Day Lewis e Camilla Belle e, como coadjuvantes, os sempre competentes Catherine Keener e Beau Bridges. Apesar da boa idéia, o enredo nunca engata verdadeiramente, faltando sempre uma boa dose de sentido. Percebe-se um esforço demasiado na tentativa de uma abordagem diferente sobre a temática do naturalismo, mas sentimos uma falta de coesão permeando a obra de forma geral. Day Lewis é, evidentemente, o grande destaque, sendo a peça da engrenagem que ainda consegue dar um pouco de credibilidade á trama. Nota: 5,5

Daniel Hetzel
Em "A Fita Branca" ( Das Weisse Band), novo filme do diretor austríaco Michael Haneke, é daqueles filmes impossíveis de ficar indiferente. Logo no início do filme, o narrador avisa: "Os eventos que se passaram ali, naquele vilarejo, no início do século, são de extrema importância para se compreender os eventos dramáticos que aconteceriam na Alemanha, décadas depois".Ficam logo claras as intenções do diretor em debater sobre as origens do nazismo. É exatamente aí que mora o grande perigo do filme...
Estranhos fatos vão se sucedendo numa pacata aldeia protestante no Norte de uma Alemanha pré-primeira guerra. A violência, tema recorrente dos filmes de Haneke, desta vez é muito mais psicológica, sendo muito mais aterrorizante a frieza coletiva ou o silêncio perturbador com que lidam certos personagens perante seus terríveis segredos. A fotografia em preto e branco que permeia todo o filme é fundamental para se criar este clima cru e agressivo. O uso da fita branca, significado de pureza, é utilizado por duas crianças afim de lembrá-los constantemente de seus pecados. Esta marca simbólica é fundamental para a trama, pois o uso das fitas não é fruto do acaso, servindo como antevisão da estrela de David usada pelos judeus durante boa parte do Terceiro Reich. Outro elemento importante que nos remete ao horror do Nazismo é o desprezo pelos deficientes físicos por parte dos habitantes da aldeia, terminando por ter seus olhos furados. Sabe-se, historicamente, que milhares de deficientes mentais alemães foram assassinados com o intuito de eliminar os incapazes da sociedade alemã. Este fato foi considerado um prelúdio do que aconteceria aos judeus na segunda guerra.
O grande defeito do filme é, ao mesmo tempo, enxergado por outros como sua grande qualidade: o roteiro. Do meu ponto de vista, o argumento utilizado pelo diretor é muito simplista. Ele peca ao tentar fazer uma análise profunda da origem do Holocausto, buscando suas raízes num sistema autoritário e altamente hierárquico da sociedade alemã do início do século passado. Haneke busca as raízes do nazismo num sistema quase feudal, altamente patriarcal e moralmente falida e, desta forma, acaba simplificando muito a discussão de temas muito mais interessantes ao centralizar seu argumento na Alemanha. Obviamente, sociedades que funcionaram e funcionam até hoje sob esses moldes não ficam restritas à Alemanha. O que nos faria pensar que o autoritarismo patriarcal na Alemanha era mais intenso do que em outros países Europeus, para se restringir "apenas" ao velho continente? Sabe-se que o antisemitismo era muito mais forte na França e na Rússia, maiores apostas dos estudiosos da época para se explodir o Holocausto.
A tese defendida pelo diretor Haneke germaniza o Holocausto, particularizando a tragédia. Considero um erro grave esquecer do caráter mundial desse acontecimento, abraçado por várias culturas, inclusive a Áustria, país de origem do diretor, que recebeu os nazistas com flores. Existe um trabalho publicado pelo famoso sociólogo Zygmunt Bauman, publicado em 1989, que rejeita essa germanização do Holocausto. Em suas palavras: "O Holocausto nasceu e foi executado na nossa sociedade moderna e racional, em nosso alto estágio de civilização e no auge do desenvolvimento cultural humano e, por essa razão, é um problema dessa sociedade." Tratar do Holocausto como uma questão de patologia psicológica em massa e exclusivamente alemã seria ignorar a incômoda verdade de que o holocausto é um símbolo do fracasso da modernidade. O Holocausto, repito, foi uma tragédia planetária, e germanizá-lo seria uma cegueira perigosa.
Infelizmente, o diretor perdeu uma grande chance de debater um tema muito mais profundo e igualmente universal: a origem do mal. Muitas vezes, os crimes não vem acompanhados de pistas à la Sherlock Holmes, e o horror pode vir escondido no rosto anjelical de uma criança. Todos os elementos estão lá. Se não fossem as palavras claras do narrador, poderíamos ter interpretado a obra de forma bem mais ousada e interessante.
Lembrando que o filme foi indicado ao Oscar de melhor filme Estrangeiro de 2010 e ganhou a Palma de Ouro do Festival de Cannes de 2009. Evidentemente, não concordo com a glorificação exagerada ao filme, pelos motivos já expostos. Mas, como se trata de um filme polêmico, o debate está aberto!

Nota: 6,0
Daniel Hetzel

Educação (An Education) é um filme que exemplifica perfeitamente o quão importante é, para o produto final, uma direção competente e sensível. O roteiro do filme, baseado no livro de memórias de Lynn Barber e adaptado para o cinema pelo roteirista inglês Nick Hornby (Alta Fidelidade), fala sobre os conflitos existenciais da jovem Jenny, de apenas 16 anos. À medida que se envolve com um homem mais velho e bon vivant (interpretado pelo ótimo Peter Sarsgaard), que clama por um estilo de vida "Carpe Diem" e reverencia a "faculdade da vida" ao invés da educação tradicional, com seus livros empoeirados e olheiras, Jenny vai questionando seus valores antigos, pré-moldados por um pai autoritário (interpretado pelo sempre competente Alfred Molina), mas não muito convincente.


Parece familiar? O tema acima, que visa analisar esses conflitos internos, tão comuns na adolescência, mais ainda entre garotas que, muitas vezes, largam os estudos para se dedicarem ao sonho matrimonial, já foi abordado em outros filmes, como "O Sorriso de Monalisa",porém, sem o mesmo brilho e ternura. A narrativa é construída de tal forma que, mesmo tratando de um assunto que toca mais a alma feminina, termina por criar uma empatia muito forte do espectador com a personagem de Jenny, conseguindo abordar o tema de um modo universalmente compreensível e tocante.


Apesar da belíssima direção da Dinamarquesa Lone Scherfig, o brilho maior do longa fica à cargo da interpretação arrebatadora de Carey Mulligan, interpretando Jenny, personagem aproximadamente 10 anos mais nova que a atriz. Carey possui uma força interpretativa muito acima do usual, conseguindo demonstrar todas as nuances necessárias de seu personagem confuso e permanentemente conflitante. É, sem dúvida alguma, a melhor interpretação dentre as indicadas ao Oscar de melhor atriz principal deste ano.


A última vez em que vi tão grande talento feminino surgir nas telonas, foi ao ver Natalie Portman no filme "Closer - Perto demais". Aguardarei ansiosamente os futuros trabalhos de Carey Mulligan para comprovar - ou não - minha aposta...


O filme recebeu três indicações ao Oscar 2010: Melhor Filme, Melhor Atriz (Carey Mulligan) e Melhor Roteiro Adaptado, mas não venceu em nenhuma categoria. Foi eleito Melhor Filme (Escolha do Público) na Competição Internacional do Festival de Sundance de 2009.
Nota: 8,0
Daniel Hetzel

Carey Mulligan atuando ao lado da consagrada atriz Emma Thompson, definido como um dos pontos mais altos de sua curta carreira

Jenny visitando sua tão sonhada Paris

O roteiro do filme "Um sonho possível" (The Blind side) é tão improvável que mais parece vindo da mente de um escritor de novelas mexicanas, das mais piegas. Jovem negro americano de 1,95m de altura e 140kg, oriundo de uma família destruída, tem sérios problemas de adaptação na escola, apresentando dificuldades cognitivas importantes, não se encaixando em nenhum círculo social. Sobrevive dormindo clandestinamente no ginásio de sua escola, até ser descoberto pela socialite e ex-líder de torcida Leigh Anne Tuohy, casada com um empresário bem sucedido e mãe de um casal de pré-adolescentes. Típica família branca americana republicana do sul dos Estados-Unidos. Eis que esta mesma família, aparentemente conservadora, decide adotar o jovem Michael Oher que, até mesmo pelo seu porte físico, demonstra talento nato pelo futebol americano.
Soa absurdamente improvável, não? Pois o lado surpreendente é que este enredo é baseado em fatos reais! Talvez por este motivo, o drama tenha sido alavancado às listas de melhores filmes do ano e, Sandra Bullock, recebido os maiores louros pelo seu papel como a corajosa decoradora de interiores que arrisca quase tudo ao apostar todas as fichas na metamorfose de seu novo protegido. Ela degladia contra tudo e todos, e se torna a grande responsável pelo "insight" decisivo que inicia a transformação de Michael Oher, até então um jovem "borderline", em grande jogador de futebol americano, mudando sua vida para sempre.
Sandra Bullock foi aclamada pelos principais prêmios de melhor atriz, incluindo o Globo de Ouro de melhor atriz dramática, o Oscar de melhor atriz e o prêmio do sindicato dos atores (SAG). Muito se debateu sobre a validade de tamanha exclamação e, na minha opinião, a resposta é simples: Qualquer outra boa atriz dramática que interpretasse a personagem de Leigh Anne jamais teria tido a mesma repercussão. Sandra Bullock, no entanto, comoveu aos críticos pelas suas raízes oriundas de comédias românticas bobinhas e, neste filme, demonstra um bom potencial dramático. Em termos de técnica interpretativa, galáxias ainda a separam de outras atrizes dramáticas, principalmente se for comparada à Meryl Streep e Hellen Mirren, também indicadas para o Oscar deste ano. Veremos se Sandra Bullock inicia, depois do incentivo dourado, uma investida consistente em filmes "sérios" em Hollywood. Potencial ela demonstrou que tem...

Nota: 7,0
Daniel Hetzel
"Guerra ao Terror" (The Hurt Locker), filme da diretora Kathryn Bigelow, até então conhecida como ex-esposa do megalomaníaco diretor James Cameron, surpreendeu o mundo ao vencer o grande favorito "Avatar" nas principais categorias do Oscar 2010. A grande pergunta desde então foi: Foi ou não justo tal resultado? A resposta pode não ser tão simples...


"Guerra ao Terror" mostra o cotidiano de um batalhão anti-bombas americano na região do Iraque nos dias atuais. O protagonista é o Sargento William James (interpretado por Jeremy Renner, ótimo no papel), militar especialista em desarmar bombas, e com um temperamento difícil e viciado pela "adrenalina" de sua profissão. Por esses motivos, acaba arriscando de forma desnecessária a vida de seus colegas, consequentemente provocando a ira de muitos. Porém, pela sua dedicação e entrega, vai conquistando seu espaço e despertando crescente respeito de seus companheiros, enquanto o desenrolar dos acontecimentos vai demonstrando que a guerra está muito longe de acabar, diferentemente do que muitos pensam.

Após esta breve sinopse, os mais atentos devem ter notado o grande fator que catapultou o filme ao seu status atual. Obviamente, trata-se de um filme muito competente, com boas atuações e direção corajosa. Porém, nada disso explica seu enorme sucesso. O filme está longe de figurar entre os maiores filmes de guerra da história do cinema, como os consagrados Apocalypse Now de Coppola, Platoon de Oliver Stone, Além da linha vermelha de Terrence Mallick, A Lista de Schindler de Spielberg, e até mesmo o recente Cartas de Iwo Jima de Clint Eastwood. Todos esses filmes trouxeram um olhar diferente e sensivelmente inovador sobre um tema incansávelmente explorado. E o que a obra de Kathryn Bigelow tem a nos acrecentar? Simples: a guerra do Iraque é tratada com a seriedade que exige, mostrando uma faceta desconhecida de boa parte do público da terra do Tio Sam. Apesar do filme ter feito relativo sucesso mundo afora, principalmente na Europa, fica evidente que a preocupação da película é ser enxergado pelo alienado público americano.

O filme não apresenta nenhuma narratória moderna, técnicas de filmagem inovadoras, edição e mixagem de som de tirar o fôlego, ou até mesmo uma direção marcante Algumas vezes, o ritmo do filme torna-se incômodamente lento e, para um filme de guerra, onde a tensão é necessária para o funcionamento da trama, é um problema. Tiro meu chapéu pela coragem de Kathryn Bigelow ter escolhido um tema históricamente dominado por homens e, durante a maior parte das cenas, ela o conduz com talento. O trabalho de Kathryn Bigelow valeu a ela, apenas a quarta cineasta indicada na história da premiação, o primeiro Oscar de direção a uma mulher na história do cinema. A trilha sonora, indicada ao Oscar, é um dos pontos altos do filme, ajudando a criar um clima de desesperança num ambiente totalmente hostil.

Toda obra precisa ser contextualizada. Não seria diferente com "Guerra ao Terror". Apesar de ser um bom filme, não concordo com a exagerada aclamação do longa, pelos motivos já expostos e, sem dúvida alguma, não se trata do melhor filme de 2009, muito menos a melhor direção do ano. Bastardos Inglórios, o grande injustiçado, que o diga.

Fica muito claro para mim que o filme obteve tamanha repercussão por um simples motivo: desejo político. O mesmo filme, sendo lançado na época do governo Bush, jamais teria conseguido alcançar vôos maiores, muito menos nas premiações mais consagradas. Porém, Obama teve como uma de suas grandes promessas de campanha, lutar para retirar progressivamente as tropas americanas do Iraque. Um filme que, como enredo, luta para demonstrar os horrores da guerra no Oriente Médio, não poderia cair no esquecimento. Não agora. E nada melhor para um filme ganhar visibilidade mundial que alguns Oscar no currículo...

Outro questionamento importante sobre o filme é a teoria defendida desde a abertura, "War is a drug”, ou seja, a guerra é uma droga, um entorpecente, algo que vicia mas de certa forma dá prazer, e para aqueles que não conseguem se controlar, pode matar. A frase é de Chris Hedges, jornalista americano, correspondente de guerra, com experiência de coberturas em mais de 50 países. Embora possa explicar o comportamento de certos indivíduos, como é o caso do protagonista do filme, é um raciocínio perigoso, ao querer simplificar os reais motivos pelos quais países como os Estados-Unidos ingressam em guerra após guerra. Motivos políticos e econômicos nunca são mencionados de forma explícita, num filme que, aparentemente, tem o propósito de desmascarar as mentiras que envolvem o conflito. Dessa forma, o filme acabou perdendo a chance de verdadeiramente figurar entre os grandes filmes de guerra de todos os tempos, se tornando pioneiro ao escancarar as reais motivações americanas no Iraque.

Se o filme ajudar, de fato, a estimular a retirada das tropas americanas do Oriente Médio, terá conseguido alcançar uma das nobres promessas de campanha de Barack Obama: Yes We Can!

Nota:7,5
Daniel Hetzel

Kathryn Bigelow recebendo sua estatueta dourada


O novo filme dirigido por Nora Ephron representa uma evolução em sua carreira, mas ainda longe de atingir o nível que se esperava dela desde o início de sua carreira, quando ainda era apenas uma talentosa roteirista emergente em Hollywood.

Com o roteiro de "Silkwood - o retrato de uma coragem" em 1983, foi indicada para o oscar de melhor roteiro original naquele ano e, menos de uma década depois, dirigiu seu primeiro filme, o mega sucesso Sintonia de amor (Sleepless in Seatle), catapultando a carreira de Tom Hanks e Meg Ryan, astros do filme. Desde então, sempre se esperava aquele "algo mais" em seus próximos filmes, mas muitos foram completos fracassos, como "Michael - anjo e sedutor" e "Bilhete premiado", até o recente "A feiticeira", execrado por público e crítica internacional. Ephron resgatou, inclusive, sua dupla de protagonistas de sucesso em "Mensagem para você", mas nem Tom Hanks e Meg Ryan novamente reunidos foram suficientes para chamar a atenção dos críticos para seu trabalho.

Eis que surge, enfim, Julie & Julia, e aqui vai a dica para qualquer diretor em crise de carreira: basta colocar em seu elenco, uma atriz que atende pelo nome de Meryl Streep. Seria injustiça dizer que o único mérito do filme é a incrível performance de Streep, que interpreta Julia Child, famosa autora de livros de culinária e apresentadora de televisão norte-americana, pioneira em sua época, e responsável por trazer aos americanos a sofisticação do paladar francês. A diretora, desta vez, conseguiu criar uma trama agradável de se ver e pelos personagens carismáticos e bem trabalhados, apesar de serem baseados em personalidades e histórias reais.

Mas, apesar de todo elogio que possa ser feito, com justiça, ao filme e à Ephron, certamente nada disso teria sido possível sem a atuação impecável de Meryl Streep, que lhe rendeu mais uma indicação ao Oscar de melhor atriz. Alguns críticos consideraram seu trabalho mais caricato, mas basta ver algum video da verdadeira Julia Child para se ter uma idéia do quão fielmente idêntica Streep buscou se tornar.

Porém, mesmo com tamanho trunfo nas mãos, o filme não pode ser considerado um grande filme. Desta vez, o roteiro é fraco, não conseguindo prender o interesse do espectador do início ao fim. Além disso, outra enorme problemática do filme é a atuação sofrível da segunda protagonista do filme, Amy Adams, interpretando Julie Powell, uma novaiorquina aspirante a escritora que consegue realizar seu sonho após o estrondoso sucesso de seu blog, cuja temática eram suas tentativas diárias em executar as famosas receitas de Julia Child. Esta última jamais aprovou o uso de seu nome ou de suas receitas para a publicação do livro de experiências de Julie Powell, considerando tal ato como plágio e charlatanismo.

Talvez tenha sido Julia Child, revirando-se em sua cova, que criou um tom tão destoante entre as duas partes do filme: duas histórias completamente independentes, tratando de fatos em tempo e espaço sem o menor elo de comunicação, criando um verdadeiro abismo entre elas. Bon appétit? Somente pelo prazer em ver Streep atuar.

Nota: 6,5
Daniel Hetzel