"A arte já não se explica por si própria, é preciso um texto para tentar ordenar o caos e traduzi-lo ao público". Sou contrário a esse raciocínio perigoso. Cria amarras ao último dos refúgios humanos. Arte não se define por natureza. Por outro lado, a arte contemporânea chegou num estágio em que, pelo menos teoricamente, tudo é arte. Quando tudo é arte, corre-se o risco de nada mais ser arte. Técnica e talento se tornam obsoletos, a esquisitice e a extravagância é o que se fixa como padrão. Istvan Sandorfi é um dos maiores expoentes da pintura figurativa de hoje, explorando o realismo fotográfico e o hiper-realismo com uma técnica invejável. Sua opinião:

“Esse retorno ao figurativo é um retorno às origens, um retorno aos fundamentos da pintura. Para sobreviver, toda atividade necessita pontualmente se renovar bebendo em suas fontes. É uma reação de sobrevivência numa época em que a arte está estrangulada por uma cultura de especulação. A abstração é um desvio da arte figurativa, com o próprio termo "abstração" vindo de "abstrair".

O objetivo é apagar o componente essencial da pintura, que é a representação, deixando a figura de lado para alegadamente poder veicular o espírito do artista. Só que esse espírito não pode ser representado adequadamente se o artista não tem a figura para lhe sugerir algo. Mas é mais fácil ser um bom pintor abstrato que um mau pintor figurativo.

O figurativismo exige rigor, certa humildade e uma grande concentração, características desagradáveis para o pintor tomado pela pretensão. Os pintores verdadeiramente figurativos são raros, e isso se deve sem dúvida a esse interesse ter sido transportado para a fotografia, elevada a arte. Vai haver um desvio para a fotografia abstrata?

A abstração não é uma coisa nova e não é uma invenção contemporânea. Uma paleta é uma pintura abstrata, até um rolo de papel higiênico pode ser pintura abstrata. A única novidade da nossa época é fazer a abstração passar por arte.”

Daniel Hetzel
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