Direto de Montréal, trago novidades da vida artística da cidade dos festivais, certamente uma das cidades mais culturalmente ricas do planeta! Sem exageros. E nada melhor do que começar minhas postagens do canadá falando um pouco sobre o novíssimo espetáculo do Cirque du Soleil: Totem.

Quem assistiu a um dos espetáculos do Cirque du Soleil, qualquer que seja, sabe perfeitamente a dificuldade ao precisar descrever, em poucas palavras, algo tão complexo e gratificante. Trata-se, indubitávelmente, de uma experiência única e inesquecível. O mais intrigante é que a parte circense foi a que menos me comoveu. É indiscutível que existem grandes artistas no palco, possivelmente alguns dos maiores nomes do mundo. As chinesas equilibristas, por exemplo, são de tirar o fôlego de qualquer um, tamanha a destreza e graciosidade de seus movimentos. Entretanto, vi esse tipo de façanha em outros palcos menos nobres...

O
grande diferencial de todos os espetáculos do Cirque du Soleil está em sua estrutura artística. A composição do espetáculo é separadamente preparada, existindo uma grande preocupação com o figurino, a música, os efeitos sonoros e a arquitetura do palco, entre outros. Para tantos focos existentes, uma colaboração multiprofissional em perfeita sincronia é essencial, dando, aos poucos, forma ao produto final. O tema do espetáculo também é cuidadosamente escolhido, de acordo com o público. Existem shows exclusivos, que podemos apreciar se visitarmos a cidade em questão, como acontece em Nova Yorke e Las Vegas.

Mas o
que o espetáculo Totem possui de novo a nos oferecer? Eu diria que nenhuma mudança revolucionária foi feita na estrutura e no ritmo das conhecidas apresentações do Cirque du Soleil, apenas o tema central foi modificado. Alguns diriam que é apenas mais do mesmo. Mas, em se tratando do Cirque du Soleil, isso é uma ótima novidade!


Daniel
Hetzel























Dennis Hopper... O que esse nome lhes faz lembrar? Para muitos, infelizmente, nada. Sim, a verdade é que muitos jovens nem ao menos ouviram falar deste grande ator. Dennis Hopper iniciou sua carreira ao lado de James Dean nos filmes "Assim Caminha a Humanidade" (Giant, 1956) e Juventude transviada ( rebel without a cause, 1955), experiência que marcaria para sempre a trajetória do ator.
Hopper era conhecido pelo seu perfeccionismo, e ingressou no mundo de Hollywood com um único objetivo: se tornar o maior ator americano de sua época. Logo percebeu que seria tarefa impossível, pois afirmou públicamente que ninguem conseguiria ser maior que Marlon Brando. Mesmo assim, não desistiu de sua idéia fixa, e já que não poderia ser o maior de todos, decidiu lutar para ser o melhor ator jovem. Entretanto, sua busca terminou muito antes que imaginava: no momento preciso em que viu James Dean atuar. Hopper ficou obcecado pelo talento de Dean, e sua morte precoce o abalou profundamente. O jovem ator decide seguir fielmente os passos de seu mentor, indo estudar na Actor`s Studios de Nova Yorke e tornando-se a verdadeira personificação do mais famoso papel de Dean, um rebelde sem causa.
Passou por um hiatus cinematográfico de 7 anos em Hollywood, após um famoso episódio durante as filmagens do filme From Hell To Texas, em que se negou a dizer uma das falas do roteiro durante 80 tomadas consecutivas. John Wayne, um dos maiores astros americanos de todos os tempos, decide salvar sua carreira ao pedir a escalação de Hopper em seu próximo western, "Os filhos de Katie Elder" ( The sons of Katie Elder, 1965) mas, aparentemente, Hopper não demonstrou muita gratidão a Wayne, pois aprontou todo tipo de confusão no set, levando o próprio Wayne à loucura, tendo perseguido o rebelde ator com a arma em punho para matá-lo.

No filme Apocalipse Now, de Francis Ford Coppolla


Poucos anos depois, no lendário ano de 69, Hopper escreve, dirige e protagoniza o seu maior sucesso: "Sem Destino" (Easy Rider, 1969). Ao lado de Peter Fonda, em pleno auge do movimento hippie, eis que Hopper decide fazer um filme sobre a busca da liberdade suprema, sem amarras da sociedade opressora americana. A obra foi um dos grandes marcos da contra-cultura mundial, inspirando centenas de outros cineastas e artistas, e ajudou a mudar a forma de se fazer cinema em Hollywood. Jack Nicholson também tem uma participação marcante no filme, se tornando um amigo inseparável de Hopper desde então. Segundo as palavras de Nicholson, ambos eram almas gêmeas, de uma certa forma.


Seu personagem imortal, em "Easy Rider".

Infelizmente, Hopper jamais conseguiu permanecer no topo por muito tempo, devido ao seu temperamento explosivo e seus hábitos de vida. Teve inúmeros problemas com drogas, tendo sido internado em clínicas de reabilitação incontáveis vezes. Foi casado 5 vezes, mas era famoso pelos seus problemas conjugais. Estava enfrentando um longo processo de divórcio com sua mais recente esposa, Victoria Duffy, até o momento de sua morte.

Após Easy Rider, Hopper estrelou alguns ótimos filmes, como o inesquecível "Apocalipse Now" de Coppolla, ao lado de Marlon Brando, e "Veludo Azul" (Blue Velvet, 1986), celebrado filme de David Lynch. Porém, para muitos, o papel mais lembrado do ator parece ser o do vilão no filme Velocidade Máxima (Speed, 1994), filme de ação que contracena com o galãzinho Keanu Reeves, futuro astro de Matrix. É inegável dizer que a carreira de Dennis Hopper teve muito mais baixos que altos, devido ao seu estilo de vida incontrolável. Mas é importante também dizer quão talentoso ele foi, ao menos quando o desejava ser. É o exemplo clássico de pessoa que desperdiçou grande parte de seu potencial artístico. Aos cinéfilos admiradores de seu talento, só nos resta lamentar e lembrarmos de Dennis Hopper como o eterno motoqueiro barbudo e hipponga, eternamente rodando pelas estradas ensolaradas do árido sul dos Estados Unidos.

Dennis Hopper morreu aos 74 anos, no último sábado, dia 29 de maio de 2010.




Dennis Hopper recebendo a 2,403ra estrela da calçada da fama de Hollywood, no dia 18 de março de 2010, já muito perto de sua morte, por câncer de próstata.


John Travolta interpreta Jack Terry, um sonoplasta de filmes de terror B que, por obra do destino, grava acidentalmente o som de um acidente de carro, que descobre ser do famoso governador George McRyan, líder nas pesquisas para ser o próximo presidente americano. É o ponto de partida de uma sucessão de acontecimentos que irão guiar Terry a desvendar esse quebra-cabeças de tom conspiratório, num crescente suspense. Travolta está ótimo no papel do protagonista paranóico e reservado, possivelmente seu melhor trabalho interpretativo até os dias de hoje ( unicamente equiparado à sua participação em Pulp Fiction de Tarantino ).

Um
Tiro na Noite ( Blowout, 1981), é um daqueles filmes que ganham popularidade com o passar dos anos, até ganharem status de cult. Porém, em sua estréia, foi um enorme fracasso de bilheteria, uma verdadeira tragédia na carreira pessoal do diretor Brian De Palma e do astro John Travolta. No entanto, o filme é considerado uma das obras-primas de De Palma pela esmagadora maioria dos criticos até hoje, sendo lembrado como uma das mais belas homenagens feitas ao mestre do suspense Hitchcock.

Na minha concepção, é mu
ito mais do que uma bela homenagem, fugindo do estereótipo clássico do suspense para se tornar um filme complexo, não em sua narrativa, mas na sua abordagem. Não se trata unicamente de um ótimo thriller, como muitos o consideram. O filme é historicamente único, essencial para quem deseja compreender um pouco do sentimento americano/anti-americano na era Reagan. Nao foi mero acaso o filme ter afundado nas bilheterias americanas em sua estréia, em 81. Precisamos entender o contexto da época: 1981 foi o primeiro ano de mandato de Ronald Reagan, presidente republicano dos Estados Unidos que assumiu num contexto de total otimismo e patriotismo renovado. Reagan, muito provávelmente, tenha sido o presidente americano que melhor soube explorar sua imagem, muitas vezes pregando uma coisa e fazendo o oposto logo a seguir, sem grandes repercussões, diferentemente de Nixon. Outro fator importante era a grande demanda pública por mais seguranca nacional, devido a uma nacão inteira ainda de ressaca pela quase interminável guerra do Vietnã.

É nesse ambiente hostil e repleto de incertezas que De Palma nos joga, brincando com seu roteiro ( no bom sentido), misturando os gêneros, provocando o senso crítico do espectador a todo momento. Ele questiona o patriotismo cego do americano comum, utilizando diversos simbolismos em momentos cruciais da trama, como no final surpreendente, cuja personagem da atriz Nancy Allen encontra-se encurralada pelo psicopata misterioso interpretado pelo ótimo John Lithgow e, como pano de fundo, a bandeira americana. Onde estaria a tão sonhada segurança
? Tudo não passaria de mera ilusão ou de falsas promessas? De Palma nos brinda com questionamentos políticos profundos, sempre com sua marca registrada: sem sutilezas, mas sem perder sua sofisticação característica. O desfecho do filme, já considerada clássica, é uma cena verdadeiramente antológica, de múltiplas interpretações. Ao meu ver, de gelar o sangue.

Certa vez, Brian De Palma fez uma célebre declaração: "A câmera mente 24 vezes por segundo".
Quanto, devemos nos perguntar, nossos políticos o fazem?

Nota: 9,0
Daniel Hetzel


A estação Cabo Branco abre as portas gratuitamente para uma temporada de Cult movies e filmes antigos, trabalhos de diretores Europeus e grandes clássicos do cinema.
A abertura fica por conta do filme Les parapluies de Cherbourg (França/Alemanha, 1964) de direção Jacques Demy.
A história é dividida em três atos, decorridos entre os anos de 1957 e 63. O primeiro ato apresenta dois jovens amantes, Genevieve (Catherine Deneuve) e Guy (Nino Castelnuovo), enlevados por uma paixão adolescente. Genevieve trabalha na loja de guarda-chuvas de sua mãe, Madame Emery, que desaprova o namoro com Guy, um simples mecânico. Um mundo mágico se arma para os amantes, quando eles estão juntos. Antes de se casar, Guy quer cumprir os dois anos de serviço militar. Eles fazem planos para o futuro, ela fica grávida do namorado quando ele vai lutar na Argélia. Quando ele volta, Geneviève está casada com outro.

Um filme singelo e bem dirigido.

Na estação França, à partir do dia 20 de maio, às 19h, em João Pessoa.

Alicia Truffaut



Sábado, 29 de maio, em Mossoró e quarta-feira, 02 de junho, em Natal, tem apresentação do espetáculo “Inveja dos Anjos”, da Armazém Companhia de Teatro.

Com direção de Paulo de Moraes e dramaturgia do poeta Maurício Arruda Mendonça em conjunto com Paulo, “Inveja dos Anjos” venceu o Prêmio Shell de Teatro 2008, nas categorias de Melhor Autor e Melhor Atriz (Patrícia Selonk), além do Prêmio APTR 2008, nas categorias de Melhor Espetáculo e Melhor Iluminação (Maneco Quinderé). Ambientado numa ferrovia com trilhos que começam e terminam no infinito, "Inveja dos Anjos "traça uma narrativa que atravessa a história de Tomás (Ricardo Martins), Cecília (Patrícia Selonk) e (Luísa) (Simone Mazzer). E a partir do encontro dos três amigos – que discutem suas memórias -, o passado vai se materializando em cena e personagens como Eleazar (Marcelo Guerra), Branca (Simone Vianna), Rocco/homem sem braço (Thales Coutinho) e Natália (Verônica Rocha) surgem, na forma de afetos perdidos ou a serem descobertos.

Inveja dos Anjos foi o espetáculo mais premiado da temporada carioca 2008 e tem o patrocínio da Petrobras para a realização da turnê pelo Nordeste. Após Mossoró e Natal, o espetáculo visita Salvador, João Pessoa, Recife e Fortaleza.

- 29/05 no Teatro Dix Huit Rosado, Mossoró, 20h;
Informações: Mossoró 84-3315 5047.
- 02/06 no Teatro Alberto Maranhão, Natal, 20h;
Informações: Natal 84-3222 3669.
- Entradas R$ 30 inteira e R$ 15 (estudantes, maiores de 60 anos, clientes com o Cartão Petrobras na compra de até 2 ingressos);
-Duração: 1h45, drama, classificação etária: 12 anos;
www.armazemciadeteatro.com.br

Luciano Dantas






"A Hora do Pesadelo" (Nightmare on Elm Street) é o novo remake baseado em um grande clássico do terror. E um novo remake desnecessário... Freddy Krueger iniciou sua trilha de sucesso com o primeiro filme da franquia, A Hora do Pesadelo, lançado em 1984, e escrito e dirigido por Wes Craven, um dos grandes nomes do terror hollywoodiano. O filme quebrava a falta de originalidade que dominava o setor, criando uma estória verdadeiramente interessante e aterrorizante: A idéia de sermos atacados por um maníaco imortal no local em que somos mais vulneráveis... nossos sonhos! Muita gente perdeu literalmente o sono nos anos 80 com medo das afiadas garras de Freddy e suas "brincadeiras" sádicas. Entretanto, por mais que seja um dos maiores ícones pop do terror mundial, Freddy cativou um maior número de fãs ao redor do mundo por uma de suas características mais marcantes: o humor negro.
É nesse quesito que existem as maiores divergências sobre a qualidade de seus filmes. Alguns fãs xiitas alegam que apenas o primeiro longa seria de qualidade inquestionável, pois Freddy assume um papel cada vez mais cômico ao longo das continuações. Porém, muitos outros (e eu me incluo neste grupo) consideram este lado irreverente de Freddy o grande diferencial de toda a franquia. É inegável a enorme contribuição do carismático ator Robert Englund, que carregou sozinho alguns dos filmes mais fracos da série. Wes Craven também foi decisivo em todos os melhores momentos de Freddy na telona, pois participou ativamente da produção/direção dos três melhores filmes ( A Hora do Pesadelo 1; A Hora do Pesadelo 3 - Os Guerreiros dos Sonhos; Novo Pesadelo - O Retorno de Freddy).

O novo longa de Freddy, além de ser o primeiro e único filme cujo ator Robert Englund não interpreta Krueger, sendo substituído pelo ator
Jackie Earle Haley (Pecados Íntimos), tenta nos transportar ao clima de terror absoluto do primeiro longa. Sem joguinhos, sem rodeios. Para aqueles que apreciavam o humor negro tão característico de Freddy, ficarão decepcionados com o resultado. O filme mostra sequências clássicas do original, como a cena da banheira, mas sem o mesmo efeito. É a grande diferença entre filmes que dão sustos e filmes que assustam. A importância da cidade Springwood e, principalmente, da rua Elm, são relegadas a terceiro plano, sem interferência alguma na trama.

O grande diferencial de "A Hora do pesadelo" tinha sido sua originalidade. Este remake tornou Freddy um vilão comum, sem carisma, sem estrela. Apenas um mostro imaginário, como tantos outros... Uma pena!

Nota: 5,0
Daniel Hetzel



A Hora do Pesadelo (1984): Onde tudo começou. Até hoje é considerado o melhor filme da saga pelos críticos. Neste primeiro capítulo, presenciamos um Freddy Krueger muito menos brincalhão, bem mais aterrorizante. Mortes antológicas, personagens carismáticos, bom elenco (incluindo a estréia cinematográfica de Johnny Depp) e uma direção firme e criativa de Wes Craven. Marcou época no imaginário dos jovens dos anos 80. Foi eleito um dos melhores filmes de terror da história do Cinema.



A Hora do Pesadelo 2 - A Vingança de Freddy (1985): Foi o primeiro filme da série sem a participação do criador Craven (que era contra sequências). Isso se reflete na falta de criatividade do roteiro e da direção. O ator protagonista é muito inferior à atriz do primeiro longa, Heather Langenkamp, e não consegue, em momento algum, convencer o espectador. Verdadeiro fracasso de público e crítica. Na minha opinião, o pior filme da série.




A Hora do Pesadelo 3 - Guerreiros de Sonhos (1987): Depois do fiasco do segundo filme, Wes Craven volta ao universo que criou como roteirista e produtor, deixando a direção a cargo de Frank Darabont (Um Sonho de Liberdade, À Espera de um Milagre). Contando com um bom elenco, incluindo Patricia Arquette, Laurence Fishburne e Heather Langenkamp (Nancy, a protagonista sobrevivente do primeiro longa), ótimos efeitos especiais, roteiro mais coeso com a estória original, temos um ótimo filme. Um dos melhores momentos de Freddy.


A Hora do Pesadelo 4 - Mestre dos Sonhos (1988): A partir deste filme, o roteiro parece não importar mais, tudo servindo como justificativa para que a estrela de Freddy apareça nas telas do cinema. O terror virou secundário, sendo muito mais cômico do que qualquer outra coisa. O elenco ficou fraco, mas ainda conta com a beleza e carisma de sua atriz principal, cujo personagem "herda" seus poderes da heróina do filme anterior e passa a ser perseguida por Freddy. Os efeitos especiais ainda continuam ótimos pelo menos. E o humor negro de Freddy permanece mais afiado que nunca. Vale a pena se você não levar o filme a sério.

A Hora do Pesadelo 5 (1989): Freddy tenta voltar à vida por meio do feto da protagonista do quarto filme. Não precisa comentar mais nada sobre a proposta do filme... Sem pé nem cabeça! O longa só serve para revelar a horrenda origem de Krueger, fruto do estupro da enfermeira Amanda Krueger por dezenas de internos em um manicômio. Um dos piores filmes da saga, na minha opinião. Só não supera o trash do segundo...




O Pesadelo Final: A Morte de Freddy (1991): Este é, de fato, o último filme da saga. Cria-se um clima de despedida, onde alguns atores convidados participam com micro-aparições divertidas (Johnny Depp, Alice Cooper, Roseanne...). Pena que escreveram um péssimo roteiro para a conclusão da série. Descobrimos que Freddy tinha uma filha, e que ele perdeu a guarda da criança durante seu julgamento pelos crimes na rua Elm. Eis que ele volta para atormentar os sonhos de sua própria filha!! Sem dúvidas, um dos piores da saga. Desta vez, não se salva quase nada.


O Novo Pesadelo (1994): Devido ao péssimo final do filme anterior, que serviria para fechar a saga de Freddy Krueger, Wes Craven decide, novamente, intervir para tentar salvar a dignidade de sua criação. Desta vez, nos deparamos com um roteiro inteligente, diferente de tudo que se viu na série. Ele mostra o que aconteceria se Freddy deixasse a ficção para perseguir Heather Langemkamp, a atriz que interpretou a Nancy do filme de 1984, na vida real. Ótimas tiradas de humor negro, direção firme. Feito em comemoração aos 10 anos da série. Vale a pena, desde que esteja preparado para ver uma perspectiva diferente dos personagens e da estória. Na minha opinião, um dos mais originais.



"Vidas Secas", filme do consagrado diretor brasileiro Nélson Pereira dos Santos, realizado no ano de 1963, é uma adaptação fiel do clássico livro homônimo de Graciliano Ramos. A obra é, junto com "Deus e o Diabo na Terra do Sol" de Glauber Rocha, um dos maiores símbolos do ínicio do movimento cinematográfico do Cinema Novo e, até os dias de hoje, serve como referência e influência para a maioria dos grandes diretores brasileiros, como Walter Salles Júnior.


O filme narra a vida de uma família de retirantes em busca de sobrevivência pelo impiedoso sertão nordestino. Desde o começo, percebemos a estética diferenciada utilizada pelo diretor, com uma fotografia em preto e branco marcada pelo excesso de luminosidade, criando uma atmosfera quase "infernal" da caatinga. A intenção clara é mostrar uma face quase documental da vida sofrida e desumana dos retirantes nordestinos, sem eufemismos. Não há preocupação em explorar o lado "belo" da miséria, como muitos o fizeram posteriormente, afim de tornar a obra mais acessível às massas. A opção genuína do filme é exatamente essa: ser uma experiência cinematográfica difícil, monótona, massacrante, mimetizando assim a vida dessas pessoas.


A primeira metade do filme se foca mais no ambiente hostil que cerca os personagens. O silêncio impera na maior parte do tempo, sendo quebrado em momentos pontuais, servindo para reforçar ainda mais a notável incomunicabilidade entre os personagens. Uma cena deixa isso bem evidente, quando a família se aconchega ao redor de uma fogueira, nos primeiros minutos do filme, e iniciam um diálogo. Nota-se rapidamente que não existe, de fato, diálogo, mas monólogos paralelos de Fabiano e Sinhá Vitória. O ritmo lento, quase arrastado, do filme também é proposital, mostrando como a noção de tempo é percebida por essa parcela da população brasileira. Parece não existir fim para quem passa fome, sente sede, é castigado pelo sol dia após dia e ainda perde todo seu salário do mês com jogatina e bebida, como acontece com a família que acompanhamos no filme.


A segunda metade, ou melhor, os 30 minutos finais do filme, Nelson P. dos Santos decide se focar mais no aspecto psicológico dos personagens. Após Fabiano ter perdido todo o sustento de sua família no jogo e vai parar na prisão, o chão desmorona por completo e o fio de esperança e sanidade mental preservados, até então, precariamente, parece se esvair rapidamente. Sinhá Vitória é a mais abalada psicológicamente, terminando por dizer, quando está na cozinha, na frente do fogo escaldante: "queria morrer pra acabar com tudo isso". Um dos meninos, o mais apegado à cachorra Baleia, repete interminávelmente para si mesmo: "Inferno, Inferno, Inferno...", questionando se o local onde vivem não seria o próprio inferno. Já Fabiano, decide por culpabilizar a própria natureza pela sua sina trágica: Culpa o sol escaldante por secar a água, que mata o gado de sede; culpa as aves, que bebem a pouca água existente das poças; Inclusive Baleia, fiel cachorra e companheira, que antes era aplaudida alegremente por caçar preás para alimentar a família, é considerada um estorvo no fim do filme, pois está fraca e doente após o castigo do sol, sendo assim executada.


É importante frisar algumas cenas especiais do filme. A primeira, que mostra os personagens contemplando o vôo das aves no sertão. Esta cena mostra que, apesar de sua estética difícil, sem falso glamour, é sempre possível enxergar o belo, mesmo que estejamos no inferno. A cena é antológica: um vôo sincronizado, que mais parece um baile, significando a ordem no mais puro caos. Apesar de fascinado, pouco depois o encanto se quebra: Fabiano parte para a ofensiva, tentando atirar nas mesmas aves que contemplava, pois as culpa, como foi dito anteriormente, pela morte do gado.


A segunda cena, não por acaso a mais conhecida do filme, é também a mais bela:a morte de Baleia. A cachorra é a personagem mais humana da obra de Graciliano Ramos, e sua transposição para as telas não poderia ter sido mais perfeita. A "interpretação" de Baleia foi tão aclamada pelo público mundo afora que, na ocasião do Festival de Cannes, quando o filme foi indicado à Palma de Ouro, a cachorra também acompanhou o elenco à premiação francesa, mobilizando a todos do mundo do cinema. Houve, inclusive, protestos de certos orgãos de proteção aos animais, convencidos que Baleia tinha sido verdadeiramente morta durante as gravações. Nos seus momentos finais, Baleia, já agonizando, tem início o mais sublime dos delírios: sonha com um sertão repleto de preás, para receber o doce afago de seus donos. Impossível não se comover com a cena, uma das mais emocionantes da história do cinema (na minha opinião). No ano de 2002, foi feito um curta-metragem, "Como se Morre no Cinema", que narra a história do papagaio que participou das filmagens, e da cachorra Baleia, mostrando bastidores do filme e depoimentos de cineastas.


Para finalizar, a terceira cena que considero antológica: Após decidirem tomar um novo rumo e buscar uma nova moradia, num local menos inóspito, a família caminha no meio do mato, no meio do nada, como no início do filme, sem um horizonte. Sinhá Vitória, tentando tirar Fabiano do mais profundo estupor, faz os questionamentos mais importantes do filme: “Como num havemo de ser gente um dia? Gente que dorme em cama de couro. Por que havemo de ser sempre desgraçado? Fugindo no mato que nem bicho. Podemo viver como sempre, fugindo que nem bicho”? A seguir, Fabiano, num momento raro de clareza, confirma: não podem mais viver como bichos! Assim, seguem seu rumo, simplesmente seguindo adiante, até o desfecho do filme. Abre-se um plano amplo; não mais temos a vegetação encobrindo (ou seria engolindo?) os personagens, aparentemente conseguindo se libertar de suas amarras e tendo como destino a cidade. Mas, da sensação de libertação repentina, vem a sensação de impotência: a medida que avançam, vão diminuindo de tamanho, até sumir naquela imensidão ensolarada (será uma previsão dos futuros acontecimentos da vida urbana?). Final de múltiplas interpretações mas, inegávelmente, poético.


"Vidas Secas" foi o único filme brasileiro a ser indicado pelo British Film Institute como uma das 360 obras fundamentais em uma cinemateca.

Premiações

- Prêmio do OCIC e prêmio dos Cinemas de Arte em Cannes, 1964.

- Melhor Filme na Resenha de Cinema de Gênova, 1965.


Nota: 9,0
Daniel Hetzel

"A Partida" (Okuribito), filme do diretor japonês Yojiro Takita, de muito renome no Japão mas ainda pouco conhecido mundo afora, é daqueles filmes que marcam nossas vidas. O tema abordado é difícil, muita gente não gosta nem de tocar no assunto: a morte. Porém, o que vemos no filme é uma abordagem muito mais ampla e respeitosa da morte. O enredo fala de um violoncelista, Daigo Kobayashi, que acaba de ver seus sonhos como grande músico virem abaixo, quando é despedido da orquestra onde tocava, em Tokio. Frustrado, decide voltar para suas raízes, no interior onde passou toda sua infância. Ao chegar, inicia-se um recomeço, cheio de memórias e uma grande surpresa: seu novo trabalho como embalsamador de cadáveres, trabalho muitas vezes alvo de preconceito no Japão. O próprio Daigo inicia sua nova empreitada repleto de desconfiança e pensando unicamente na compensação financeira mas, aos poucos, vai vivenciando experiências enriquecedoras e carregadas de grande emoção, ao perceber o respeito e dedicação de seu chefe ao "preparar" os mortos, com gestos firmes e precisos, repletos de delicadeza, na frente de todos os familiares, aliviando um pouco a dor que a separação da morte os traz.


As tradições japonesas não são completamente compreendidas na cultura ocidental mas, mesmo que alguns tenham algum sentimento de estranheza com certos hábitos pouco convencionais, como a presença marcante das casas de banho no filme, os alimentos crus, a própria profissão de embalsamador como é praticada lá no Japão, o uso das "pedras sentimentais", tudo isso é mostrado no filme dentro de um contexto tão universal e belo que praticamente esquecemos o quanto nossas culturas são distantes, e criamos uma empatia enorme com o personagem de Daigo, enxergando sua percepção evoluir à medida que o filme passa, chegando até o final arrebatador.

É uma obra-prima japonesa, que ganhou merecidamente o Oscar de melhor filme estrangeiro do ano passado, deixando pra trás os mais badalados "Valsa com Bashir" de Israel e o francês "Entre os muros da escola". Vale ressaltar também a dedicação do ator Masahiro Motoki e do diretor Takita, que estudaram durante uma década o ritual fúnebre para assim apresentarem uma obra mais convincente. o ator Masahiro Motoki, inclusive, aprendeu a tocar violoncelo de verdade nesse tempo. Não podemos esquecer um dos pontos mais altos do filme: a trilha sonora, composta por Joe Hisaishi, mesmo de "Castelo Animado"e “Viagem de Chihiro”. A trilha é, sem dúvida, inesquecível, e encaixa perfeitamente na narrativa, daquelas que fazem nossas emoções ficarem à flor da pele.

O filme só reforça a força crescente do cinema oriental, e os muitos prêmios internacionais ganhos pelo filme ajudam a ganhar essa visibilidade, para um cinema tão sensível e ainda pouco conhecido por nós. Enquanto esperamos ansiosos por mais obras-primas da terra do sol nascente, bato palmas de pé para este filme magnífico que, desde já, tem um cantinho especial reservado em minhas mais belas memórias.

Nota: 10
Daniel Hetzel